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Poema
Leia o poema de Hilda Hilst:
Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.
Leia com atenção o trecho abaixo:
Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto-autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.
(Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)
No fragmento acima, a construção da voz que relata a história introduz uma instigante variação no que diz respeito aos tipos de narrador.
Assinale a alternativa correta com base no trecho e na teoria do foco narrativo.
O uso da expressão “defunto-autor” sinaliza a transição para um narrador em terceira pessoa (narrador-observador), que se limita a relatar fatos alheios com total isenção e objetividade, sem participar dos acontecimentos descritos.
A menção a Moisés e ao Pentateuco justifica a presença de um narrador-onisciente tradicional, cuja principal característica é manter uma postura moralizante e prever o destino de todas as personagens de forma linear.
Trata-se de um caso clássico de narrador-testemunha, no qual o falecido utiliza a primeira pessoa apenas para descrever a vida de terceiros, omitindo deliberadamente suas próprias experiências e sentimentos.
A escolha por iniciar a narrativa pela morte anula a subjetividade do foco narrativo, transformando o “defunto-autor” em uma voz impessoal e coletiva que representa o pensamento unânime de todas as classes sociais da época.
A obra adota um narrador-personagem, mas subverte as convenções tradicionais desse modelo ao situar a perspectiva da voz narrativa no além-túmulo, conferindo-lhe um distanciamento crítico inacessível aos vivos.