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O espetáculo do hermetismo*: a retórica oracular contra a generosidade intelectual
Por Marco Aurélio Werle
01 Há um modelo contemporâneo de pensador público ..... autoridade não se constrói pela
02 capacidade de iluminar, mas pelo poder de encantar através da opacidade. É o intelectual
03 oracular, figura cativa de debates acadêmicos e mesas-redondas, ..... ensaísmo opera
04 prioritariamente por meio de um labirinto retórico sedutor.
05 Em suas exposições, a linearidade tradicional — com começo, meio e fim — é
06 deliberadamente sacrificada. O discurso flui por livre associação de ideias, costurando de forma
07 vertiginosa fragmentos de notícias cotidianas, ..... histórica e saltos temporais bruscos.
08 Essa colagem textual cumpre uma função psicológica precisa: gerar no espectador uma forte e
09 imediata sensação de urgência, desamparo e catástrofe iminente.
10 O ganho estético e performático dessa abordagem, porém, cobra um preço altíssimo na
11 clareza. Ao término da exposição, salvo se o ouvinte tentar colocar no papel a cadeia lógica de
12 causas e efeitos para reconstruir o argumento passo a passo, perceberá que a estrutura
13 conceitual se dissolveu em fumaça. A fala funciona mais como um transe afetivo do que como
14 transmissão de conhecimento estruturado. Produz-se um efeito de profundidade pelo excesso de
15 conexões herméticas e ..... Essa blindagem retórica não é inocente; ela protege a
16 argumentação contra qualquer contestação factual ou empírica, afinal, torna-se virtualmente
17 impossível refutar teses que se recusam terminantemente a se fixar em hipóteses nítidas.
18 Para sustentar esse diagnóstico de colapso permanente e paralisia social, esse tipo de
19 análise recorre à personificação de grandes abstrações econômicas e sociais. Conceitos
20 macroestruturais e sistêmicos — como “o Capital”, “o Mercado” ou “o Estado” — deixam de ser
21 entendidos como processos dinâmicos movidos por conflitos de classe e agências humanas
22 concretas. Passam a ser tratados como sujeitos autônomos e conscientes, dotados de vontade
23 própria, intenções malévolas deliberadas e estratégias ocultas de dominação. Esse movimento
24 teórico resvala em um determinismo absoluto e conspiratório que apaga as contradições internas
25 das elites e as contingências imprevisíveis do cotidiano. Paralelamente, esse olhar alimenta o
26 mito de uma excepcionalidade trágica local, tratando a realidade como uma “singularidade
27 maldita”, uma anomalia isolada do resto do planeta. Ao fechar os olhos para comparações,
28 prefere-se o isolamento do “caso único” à evidência de que os mesmos fenômenos de
29 precarização ocorrem de forma semelhante em outros locais.
30 Por fim, esse posicionamento crítico se protege atrás de uma ironia constante e de um falso
31 despojamento. O deboche soberbo direcionado .. ilusões do progresso, .. tentativas de reforma
32 institucional e .. ingenuidade de quem ainda tenta agir politicamente cria um escudo de
33 imunidade total para quem fala. Instalado na chave do sarcasmo intransigente, o observador se
34 coloca acima do erro e da prática, desobrigando-se inteiramente de propor caminhos viáveis,
35 defender programas ou assumir os riscos de uma intervenção real na história.
36 O saber, dessa forma, deixa de ser um bem comum e se transforma em um espetáculo de
37 conhecimento ..... e privativo. Em vez de instrumentalizar o público com ferramentas
38 conceituais replicáveis para que compreenda e transforme de forma independente a própria
39 realidade, essa postura gera uma relação de dependência afetiva e passividade intelectual. O
40 ouvinte consome o pessimismo do mestre como um certificado de lucidez, mas sai da sala de
41 mãos vazias. O oposto absoluto desse modelo autoritário e excludente seria uma pedagogia
42 verdadeiramente democrática e generosa. Uma postura ..... influência se baseia na máxima
43 clareza metodológica, na simplicidade nobre da partilha e na disposição transparente de ter as
44 próprias ideias testadas, criticadas e superadas por qualquer pessoa.
(Disponível em: https://jornal.usp.br/?p=1024676 – texto adaptado especialmente para esta prova).
*hermetismo
2 p.ext. saber oculto, esotérico, reservado a poucos
3 p.ext. caráter daquilo que é difícil de compreender e/ou interpretar
(HERMETISMO. In: DICIONÁRIO HOUAISS. [S. l.]: UOL, [s. d.]. Disponível em: https://houaiss.uol.com.br/houaisson/apps/uol_www/vopen/html/inicio.php/4c9/hermetismo. Acesso em: 20 jun. 2026.)
No que tange ao uso dos pronomes relativos, assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas pontilhadas dos trechos a seguir, retirados do texto:
• “Há um modelo contemporâneo de pensador público ........ autoridade não se constrói pela capacidade de iluminar, mas pelo poder de encantar através da opacidade”.
• “É o intelectual oracular, figura cativa de debates acadêmicos e mesas-redondas, ........ ensaísmo opera prioritariamente por meio de um labirinto retórico sedutor”.
• “Uma postura ....... influência se baseia na máxima clareza metodológica”.
cuja – cujo – cuja
cujo – cujo – cuja
cuja – cuja – cujo
cuja a – cujo o – cuja a
a cuja – o cujo – a cuja