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Leia o texto e responda às questões seguintes.
O retrato
Aldous Huxley
– Pinturas – disse o sr. Bigger. – Você quer ver algumas pinturas? Bem, temos no momento, em nossas galerias, uma exposição mista de coisas modernas muito interessante. Francesas e inglesas, sabe?
O freguês ergueu a mão e sacudiu a cabeça.
– Não, não. Nada de moderno para mim – declarou, em seu agradável inglês do norte. – Quero pinturas de verdade, pinturas antigas. Rembrandt e Sir Joshua Reynolds, esse tipo de coisa.
– Perfeitamente – assentiu o sr. Bigger. – Os Velhos Mestres. Ah, naturalmente lidamos com os antigos, assim como com os modernos.
– O fato é – disse o outro – que acabei de comprar uma casa meio grande. Um Solar – acrescentou em tom imponente.
O sr. Bigger sorriu; havia naquele sujeito simples uma ingenuidade muito simpática. Perguntou-se como o homem teria ganhado dinheiro. “Um Solar.” O modo como ele tinha dito isso era de fato encantador. Ali estava um homem que com seu trabalho ascendera da servidão à posse de um solar, desde a base larga da pirâmide feudal até o cume estreito. Sua própria história e toda a história das classes sociais estavam implícitas naquela ênfase orgulhosa e reverente de “Solar”. Mas o desconhecido continuava a falar; o sr. Bigger não podia se dar ao luxo de maiores divagações.
– Em uma casa desse estilo – dizia o outro – e com uma posição como a minha, é preciso ter alguns quadros. Velhos Mestres, sabe; Rembrandt e aqueles sujeitos.
– Naturalmente – disse o sr. Bigger –, um Velho Mestre é um símbolo de superioridade social.
– É exatamente isso – exclamou o outro com um sorriso largo. – Você disse o que eu queria dizer.
O sr. Bigger inclinou-se e sorriu. Era delicioso encontrar alguém que tomava suas pequenas ironias como grave seriedade.
– Claro, precisamos de um só Velho Mestre no primeiro andar, no salão de recepções. Seria bom demais ter um em cada quarto também.
– Realmente seria – assentiu o sr. Bigger.
– Aliás, minha filha desenha um pouco – continuou o Senhor do Solar. – É muito bem. Mande emoldurar algumas das coisas dela para pendurar nos quartos. É útil ter um artista na família. Economiza na compra de quadros. Mas, é claro, precisamos ter alguma coisa antiga no primeiro andar.
– Acho que tenho exatamente o que você quer. – O sr. Bigger levantou-se e tocou a campainha. “Minha filha desenha um pouco”: ele imaginou uma personagem grande, loira, do tipo de uma estalajadeira, com trinta e um anos e ainda solteira, um pouco decadente. Sua secretária assomou à porta. – Traga-me o retrato veneziano, srta. Pratt, aquele na sala dos fundos. Sabe a qual me refiro.
– Você está bem instalado aqui – comentou o Senhor do Solar. – Os negócios vão bem, espero.
O sr. Bigger suspirou.
– A recessão – disse. – Nós, comerciantes de arte, somos mais afetados por ela do que qualquer outra pessoa.
– Ah, a recessão. – O Senhor do Solar deu uma risadinha. – Eu previ isso o tempo todo. Algumas pessoas pareciam pensar que os bons tempos durariam para sempre. Que tolos! Vendi tudo na crista da onda. Por isso posso comprar quadros agora.
O sr. Bigger riu também. Esse era o tipo certo de freguês.
– Eu gostaria de ter tido algo para vender durante a alta – disse.
O Senhor do Solar riu até as lágrimas rolarem por seu rosto. Ainda estava rindo quando a srta. Pratt tornou a entrar na sala. Ela carregava um quadro, como um escudo, com as duas mãos, à sua frente.
– Coloque-o no cavalete, srta. Pratt – disse o sr. Bigger. – Agora, o que acha? – perguntou, voltando-se para o Senhor do Solar.
O quadro que estava no cavalete à frente deles era um retrato de meia altura. De rosto redondo, pele branca, busto alto em seu vestido profundamente decotado de seda azul, a pessoa retratada parecia uma típica dama italiana de meados do século XVIII. Um pequeno sorriso complacente curvava os lábios carnudos, e em uma das mãos ela segurava uma máscara preta, como se tivesse acabado de retirá-la depois de um dia de carnaval.
– Muito bonito – fez o Senhor do Solar, mas acrescentou, em tom de dúvida: – Não parece muito Rembrandt, não é? É tão claro e brilhante... Geralmente nos Velhos Mestres a gente nunca enxerga nada, são tão escuros e embaçados.
– É verdade – disse o sr. Bigger. – Mas nem todos os Velhos Mestres são como Rembrandt.
– Imagino que não. – O Senhor do Solar não parecia convencido.
– Este quadro é veneziano, do século XVIII. As cores dele são sempre luminosas. Giangolini foi o pintor. Ele morreu jovem, sabe? Não mais que meia dúzia de seus quadros são conhecidos. Este é um deles.
O Senhor do Solar assentiu. Ele sabia apreciar o valor da raridade.
– Percebe-se ao primeiro olhar a influência de Longhi – continuou vivamente o sr. Bigger. – E há algo da morbidezza de Rosalba no rosto.
O Senhor do Solar olhava desconfortavelmente do sr. Bigger para o quadro e do quadro para o sr. Bigger. Não há nada mais embaraçoso do que ouvir alguém que possua mais conhecimento do que nós. O sr. Bigger aproveitou sua vantagem.
– É curioso – continuou – que não se reconheça coisa alguma do estilo de Tiepolo nele. Você não acha?
O Senhor do Solar assentiu. Seu rosto tinha uma expressão sombria. Os cantos de sua boca de bebê caíram. Podia-se imaginar que ele ia desatar em lágrimas.
– É agradável – disse o sr. Bigger, compadecendo-se afinal – conversar com alguém que realmente entende de pintura. tão poucas pessoas entendem.
– Bem, não posso dizer que tenha estudado muito o assunto – disse o Senhor do Solar modestamente. – Mas sei o que me agrada quando o vejo. – Seu rosto iluminou-se como se mais uma vez se sentisse em terreno seguro.
– Um instinto natural – disse o sr. Bigger. – Isso é um dom muito precioso. Vi em seu rosto que o senhor o possui; vi no momento em que entrou na galeria.
O Senhor do Solar ficou deliciado.
– Realmente, ora – disse. Sentia-se crescer, ficar mais importante. – Realmente. – Inclinou a cabeça criticamente para o lado. – Sim, devo dizer que acho esse quadro muito bom. Muito bom. Mas o fato é que eu preferia uma peça mais histórica, entende o que quero dizer? Alguém com mais jeito de ancestral, sabe? Um retrato de alguém com uma história – Ana Bolena, ou Neil Gwynn, ou o Duque de Wellington, algo do gênero.
– A dama que o senhor vê ali – disse, indicando o retrato com um gesto de mão – era a esposa do quarto conde Hurtmore. A família agora está extinta. O nono conde morreu no ano passado. Consegui esse quadro quando a casa foi vendida. Triste ver o fim dessas velhas casas ancestrais.
– Agora, quanto você quer pelo quadro? – perguntou ele. Seu tom era neutro, sem preparação alguma; era uma peça rara demais para barganhar.
– Já pedi até mil por obras menos importantes que esta. Mas não me importo de vendê-la por setecentos e cinquenta.
O Senhor do Solar assobiou.
– Setecentos e cinquenta? – repetiu. – É demais.
– Mas, meu caro cavalheiro – protestou o sr. Bigger –, pense no que teria de pagar por um Rembrandt deste tamanho e qualidade: vinte mil pelo menos. Setecentos e cinquenta não é demais. Pelo contrário, é muito pouco, considerando-se a importância do quadro que levará. O senhor tem esclarecimento o bastante para ver que esta é uma bela obra de arte.
– Ah, não estou negando isso – disse o Senhor do Solar. – Tudo o que estou dizendo é que setecentos e cinquenta é muito dinheiro. Uau! Ainda bem que minha filha desenha. Pense se eu tivesse que enfeitar os quartos com pinturas a setecentos e cinquenta cada uma! – Ele riu.
O sr. Bigger sorriu.
– O senhor tem de se lembrar também de que está fazendo um bom investimento – disse. – Os antigos venezianos estão subindo. Se eu tivesse um capital sobrando...
A porta abriu-se e a cabeça loira e ondulada da srta. Pratt assomou.
– O sr. Crowley quer saber se pode recebê-lo, sr. Bigger.
O sr. Bigger franziu a testa.
– Diga-lhe que espere – respondeu com irritação. Tossiu e voltou-se novamente para o Senhor do Solar. – Se eu tivesse algum capital sobrando, ia colocá-lo todo em antigos venezianos. Até o último centavo.
Enquanto dizia essas palavras, perguntou-se quantas vezes já dissera às pessoas que colocaria todo o seu capital, se tivesse algum, em cubismo primitivo, escultura negra, gravuras japonesas...
Finalmente o Senhor do Solar escreveu-lhe um cheque de seiscentos e oitenta.
– Você podia me arranjar uma cópia datilografada da história – pediu, enquanto punha o chapéu. – Seria um bom caso para contar aos convidados durante o jantar, não acha? Eu gostaria de ter os detalhes bem corretos.
– Ah, naturalmente, naturalmente – disse o sr. Bigger. – Os detalhes são importantíssimos.
Levou o homenzinho roliço até a porta.
– Bom dia, bom dia.
O homem partiu.
Um rapaz alto e pálido, com costeletas, apareceu à porta. Seus olhos eram escuros e melancólicos; sua expressão, sua aparência geral, eram românticas e ao mesmo tempo davam um pouco de pena. Era o jovem Crowley, o pintor.
– Lamento tê-lo feito esperar – disse o sr. Bigger. – Por que queria me ver?
O sr. Crowley parecia constrangido, e hesitou. Como odiava ter de fazer esse tipo de coisa!
– O fato é que estou terrivelmente sem dinheiro – disse afinal. – Imaginei que talvez o senhor não se importasse, se lhe fosse conveniente, de me pagar por aquela coisa que fiz para o senhor no outro dia. Lamento muito incomodá-lo assim.
– Não se preocupe, meu caro amigo. – O sr. Bigger tinha pena dessa criatura desgraçada que não sabia como cuidar de si mesmo. O pobre jovem Crowley era indefeso como um bebê. – Quanto foi que combinamos?
– Vinte libras, acho que era – disse o sr. Crowley timidamente.
O sr. Bigger pegou sua carteira.
– Vamos dizer vinte e cinco – falou.
– Ah, não, realmente, eu não poderia. Muito obrigado. – O sr. Crowley ruborizou-se como uma menina. – Imagino que não gostaria de fazer uma exposição com algumas de minhas paisagens, não é? – perguntou, encorajado pelo ar de benevolência do sr. Bigger.
– Não, não. Nada de seu. – O sr. Bigger sacudiu a cabeça inexoravelmente. – Não há dinheiro em coisas modernas. Mas compro qualquer quantidade desses falsos Velhos Mestres seus. – Tamborilou com os dedos no ombro pintado de lady Hurtmore. – Tente outro veneziano – acrescentou. – Este aqui foi um grande sucesso.
Fonte: HUXLEY, Aldous. Contos escolhidos. Tradução: Eliana Sabino; revisão da tradução: Bruno Gambaroto. - [3. ed.] - São Paulo: Globo, 2014. Texto adaptado.
“Pense se eu tivesse que enfeitar os quarts com pinturas a setecentos e cinquenta cada uma! – Ele riu.
O sr. Bigger sorriu.” (44º e 45º§)
Assinale a opção em que o comentário a respeito do emprego das palavras destacadas, nesse contexto, está correto.
Há diferença de matizes semânticos entre os dois verbos, de modo que “sorrir” indica reação irônica ou maliciosa.
O verbo “rir” tem sentido mais abrangente, sendo considerado hiperônimo em relação a “sorrir”.
As palavras em destaque podem ser consideradas sinônimas perfeitas, pois exprimem significado exatamente igual.
“Sorrir” tem mais peso que “rir”, o que sugere maior vantagem do sr. Bigger durante a conversa.
Conotativamente, as palavras podem ser usadas uma pela outra, sem prejuízo do sentido.