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Beber à saúde
Há estudos que mostram que a satisfação com gole é um poderoso serviço contra o estresse
Paulo Pestana
Publicação:06/03/2020
Deixamos passar de propósito. Ano passado apareceu um estudo médico dizendo que beber, mesmo moderadamente, faz mal à saúde. Escolhemos não acreditar que uma garrafa de vinho — logo ele, tão bem falado — equivalia ao prejuízo de 10 cigarros. E que tequila pode aumentar o risco de um AVC, ao contrário do que era especulado.
A pesquisa não livra nem as pessoas educadas, que bebem moderadamente — um litro de cerveja ou duas tacinhas de vinho por semana bastariam para aumentar riscos. Mas nas letras miúdas, revela-se que ela foi feita entre chineses, até porque o objetivo era entender por que os asiáticos ficam tontos mais rapidamente.
Há estudos para tudo, com resultados feitos para agradar o freguês. Depende, acho, de quem financia. Já vivemos época em que a margarina deveria substituir a manteiga, que o ovo frito deveria ser banido, que o óleo de canola era incensado, que miojo e mandiopã deveriam fazer parte da dieta das crianças. Tudo mudou.
Na mesa do bar, chegamos à conclusão de que podem estar usando o mesmo truque de Moisés, que levou a proibição divina de não comer carne de porco a seu povo; altamente perecível, o produto causava muitas doenças. Na nossa teoria — sem comprovação científica e feita depois de alguns goles — o governo chinês quer gente mais sóbria por lá.
Cerca de 2,3 bilhões de pessoas neste planeta redondo — e que no caso dos exageros gira muito mais rápido — bebem álcool. Somos minoria e cercados de abstêmios ou, no mínimo, mentirosos. Tirando crianças e adolescentes, sobram 5 bilhões de pessoas; 2,7 bilhões estão vigiando e regulando quem gosta de uma pinguinha, de um licorzinho, do inocente Vermute, até do Biotônico Fontoura.
O Faixa, companheiro de bar, quase um filósofo do hedonismo, sustenta que esses estudos são perda de tempo. A tese é que a bebida alcoólica no copo representa os louros do fim da prova do dia a dia, o momento em que todo o transtorno da vida é sorvido em goles de recompensa.
"E quem quer ser o Highlander?", pergunta ele, lembrando-se do guerreiro imortal que luta para manter a cabeça grudada ao pescoço.
Na contramão dos chineses, há estudos que mostram que a satisfação com gole é um poderoso serviço contra o estresse, que a Organização Mundial da Saúde ainda não reconhece como doença, mas que é a causa de algumas delas. Hans Selye, canadense e um dos maiores especialistas da matéria, sustenta que o estresse é o resultado de uma civilização criada pelo homem, que ele mesmo não consegue suportar. Um trago ajuda.
Mas o principal é que agora chega um novo estudo a dizer que o consumo moderado do álcool traz benefícios à saúde, com a vitamina B da cerveja e antioxidante dos vinhos (quando nada, com o limão da caipirinha...). Nesse estudo nós acreditamos.
Evitando os exageros, seguimos lendo e acreditando em Charles Bukowski: "Se acontece algo de ruim, bebe-se para esquecer; se for algo de bom, bebe-se para celebrar; se não acontecer nada, bebe-se para que algo aconteça".
Disponível em: http://df.divirtasemais.com.br/app/noticia/maisleitor/2020/03/06/noticia-mais-leitor,162338/cronica-da-semana-beber-a-saude.shtml
Partindo do raciocínio de que um gênero textual possui uma estrutura e uma finalidade comunicativa, o texto “Beber à saúde”, de Paulo Pestana, pode ser classificado como
uma fábula, pois apresenta discussões que apontam para uma moral.
uma crônica, pois apresenta reflexões a partir de uma questão cotidiana.
um artigo de opinião, pois apresenta de forma imparcial um tema polêmico.
uma reportagem, pois apresenta de forma objetiva um tema de interesse social.
uma fábula, pois apresenta de forma parcial um tema de interesse social.