Imagem de fundo

Confissão de Allan Poe, o título do texto, e construção de...

Confissão de Allan Poe

1 Cometi apenas um erro. Não soube ser feliz. Nunca:

nem um só dia, nem sequer uma hora. A própria criação, um

prazer para os poetas mais sensíveis, foi para mim sempre mais

4 angustiante que redentora. A causa primeira do meu infortúnio,

conheço-a agora. Tive sempre medo da vida. De uma

sensibilidade exacerbada e doentia desde a mais tenra infância,

7 atormentada e mortificada até a exaustão pelo infortúnio e pela

miséria, a vida banal, as realidades quotidianas constituíam para

mim uma fonte constante de terror. Tinha a impressão de viver

10continuamente suspenso no limite de dois reinos — ser uma

criança semimorta unida em laço misterioso a um espectro

nostálgico. A criança tinha medo da treva; o espectro da luz.

13Uma e outro aspiravam à morte e, simultaneamente, receavam

na. A vida era para mim aborrecimento, alucinação,

condenação. Cada vez que eu tentava reconciliar-me com ela,

16saía maltratado, repelido. Fazia-me o efeito de um anjo que

pretendesse participar num banquete de monstros. O próprio

amor não logrou salvar-me porque a mulher é uma das mais

19perfeitas encarnações da vida, e eu tinha da vida um indizível

terror. Todas as mulheres que julguei amar ou fugiram de mim,

ou estão mortas. Uma vez mortas, e só então, elas pareciam

22realmente minhas amantes na eternidade, as únicas que

poderiam amar um homem segregado da vida. Para escapar às

minhas visões terrificantes, aos meus pesadelos, às tentações de

25minha razão delirante, um gênio forçava-me a escrever, senhor

mais titânico e exigente que um demônio. Escrevi, pois, toda a

minha vida poemas, narrativas, contos, tratados, ensaios.

28Porém, mal experimentava a ilusão de pela poesia ter

exorcizado a perseguição dos meus pavores, logo outras

alucinações, outros pesadelos, outras bizarrias macabras e

31fúnebres assaltavam sem trégua a minha pobre alma

acabrunhada. Então, como última esperança do meu desespero,

buscava socorro no álcool, que, aliás, abominava.


Revista Literatura. São Paulo: Escala Editorial, 2009, n.º 23, p. 45 (com adaptações)


Considerando as estruturas linguísticas do texto acima, julgue os itens de 1 a 7.

Confissão de Allan Poe, o título do texto, e construção de Brasília são estruturas semelhantes sintaticamente, pois são formadas por substantivo abstrato mais preposição de seguida de outro substantivo, o qual, no título do texto, desempenha papel de agente — pelo qual se entende que Allan Poe fez uma confissão — e, em construção de Brasília, desempenha papel de paciente.


C

Certo


E

Errado