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Texto I – itens de 1 a 20
1 ____ A sociedade humana organizou-se sobre alguns
eixos que, ao longo da história da civilização, revelaram-
se constantes, mas em permanente rotação: o manejo da
4 técnica desde o domínio do fogo; a regulação das trocas
desde a proibição do incesto; a ordenação do mundo pela
nomeação do verbo; o controle das massas pela tomada
7 do poder. Entre eles, girando igualmente ao sabor de
forças intercondicionadas, estava o homem — assim,
grafado no singular e significando o coletivo. O homem,
10 então, era os homens.
A primeira notícia que se tem desta noção
delineia este ser humano, menos como espécie e mais
13 como gênero, sem qualquer traço de individualidade que
o retirasse do todo em que se perdia anônimo. Nomes
tinham apenas os que simbolizavam este coletivo: os reis
16 — legisladores — profetas, cuja vontade e cuja palavra
determinavam as fronteiras em que se moviam os
demais, que, morrendo anonimamente em seu nome,
19 paradoxalmente lhe permitiam dar vida a este nome e
perpetuar-se na memória.
Mesmo quando doutrinas menos monolíticas
22 passaram a criar dissabores para estas estruturas aqui e
acolá, o homem, imaginando-se como um outro, em uma
história de lugares marcados, desenvolveu uma percepção
25 míope de sua condição pessoal, a não ser quando do
“chamado” divino.
Das histórias de seres imaginários e coisas
28 anímicas às narrativas de confissões e memórias, passam-
se alguns milênios e muitos conflitos em que as vitórias
no campo de batalha nem sempre significaram, para os
31 nomeados, êxito na manipulação das massas. Esta gente
ignara, de difícil compreensão e muita perplexidade, antes
comprometia que servia, pela ignorância, os rumos que o
34 poder estatuía, como o da história.
A noção de indivíduo nos chega com o Romantismo,
quando o herói, não mais místico ou legendário, mas navegador
37 ou mascate, começa a fazer um nome, tirando do anonimato um
Cristóvão Colombo, um Romeu, um Quixote, um Rousseau. Das
confissões de Rousseau, podem-se puxar dois fios que, de perto,
40 tocam o tema de que se está a tratar: o da noção de
individualidade e o da relevância da educação. A revolução
mercantil e marinheira, que sustentou economicamente o
43 Renascimento e o Absolutismo, já fortalecera as corporações de
ofícios e as pequenas escolas monacais para tornar útil a gente
miúda, despreparada para garantir seu sustento e o dos reinos.
46 ___ A noção de indivíduo, todavia, se circunscreve
sociologicamente para distinguir o homem na multidão e,
mesmo quando ao cabo da revolução burguesa, o nome próprio
49 ganhou foro (enquanto se vendiam títulos de nobreza), a
educação se manteve como instrumento de domesticação e
adaptação dos indivíduos aos papéis sociais que lhes foram
52 reservados pelo novo sistema.
Educar, no entanto, apontava para outros
procedimentos. De ex-ducere — conduzir para fora, trazer à
55 tona, à expressão, o que vive dentro do homem —, educação,
pelo próprio étimo, solicitava estratégias diversas das que então
se punham em marcha no processo de escolarização que,
58 lentamente, se expandia. Educação presumia acompanhamento,
companhia, diálogo, troca de olhares e de experiências,
manifestação da relação homem versus mundo que a percepção
61 colhia, ensaio de especulações, construção de conhecimento.
Ao contrário, um rol sistemático de conteúdos e de
valores, tendo por base ideologias subliminares, desenhou o
64 educando educável e o homem educado que a sociedade
almejava conformar. Primeiro, a prevalência do caráter
instrumental; depois, o adestramento de habilidades; em
67 seguida, a assimilação da tradição e do conhecimento
acumulados e, por fim, o treinamento técnico. E a sociedade,
dessa forma, distancia-se cada vez mais dos sonhos de cidadania
70 responsável e de qualidade de vida com direitos garantidos.
Eliana Yunes. Função do leitor: a construção da singularidade. In: Pensar a leitura: complexidades. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2002, p. 115 (com adaptações).
Considerando o emprego das classes de palavras e as estruturas sintáticas no texto I, julgue os itens a seguir.
Com a construção “educando educável e o homem educado” (l.64), os dois adjuntos adnominais sublinhados denotam atributos relacionados, respectivamente, ao processo e ao produto da educação.