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Não é meu
(...)
Quando Trotsky caiu em desgraça na União So-
viética, sua imagem foi literalmente apagada de foto-
grafias dos líderes da revolução, dando início a uma
transformação também revolucionária do conceito de
5 fotografia: além de tirar o retrato de alguém, tornou-se
possível tirar alguém do retrato.
A técnica usada para eliminar o Trotsky das fotos
foi quase tão grosseira — comparada com o que se
faz hoje — quanto a técnica usada para eliminar o
10 Trotsky em pessoa (um picaretaço, a mando do Stalin).
Hoje não só se apagam como se acrescentam
pessoas ou se alteram suas feições, sua idade e sua
quantidade de cabelo e de roupa, em qualquer ima-
gem gravada.
15 A frase “prova fotográfica” foi desmoralizada
para sempre, agora que você pode provar qualquer
coisa fotograficamente.
Existe até uma técnica para retocar a imagem
em movimento, e atrizes preocupadas com suas ru-
20 gas ou manchas não precisam mais carregar na ma-
quiagem convencional — sua maquiagem é feita ele-
tronicamente, no ar.
Nossas atrizes rejuvenescem a olhos vistos a
cada nova novela (...).O fotoxópi é um revisor da Na-
25 tureza. Lembro quando não existia fotoxópi e recor-
riam à pistola, um borrifador à pressão de tinta, para
retocar as imagens.
Se a prova fotográfica não vale mais nada nes-
tes novos tempos inconfiáveis, a assinatura muito
30 menos.
Textos assinados pela Martha Medeiros, pelo
Jabor, por mim e por outros, e até pelo Jorge Luís
Borges, que nenhum de nós escreveu — a não ser
que o Borges esteja mandando matérias da sua bi-
35 blioteca sideral sem que a gente saiba —, rolam na
internet, e não se pode fazer nada a respeito a não
ser negar a autoria — ou aceitar os elogios, se for o
caso.
Agora mesmo está circulando um texto atacando
40 o “Big Brother Brasil”, com a minha assinatura, que
não é meu. Isso tem se repetido tanto que já começo
a me olhar no espelho todas as manhãs com alguma
desconfiança. Esse cara sou eu mesmo? E se eu es-
tiver fazendo a barba e escovando os dentes de um
45 impostor, de um eu apócrifo? E — meu Deus — se
esta crônica não for minha e sim dele?!
VERISSIMO, L. F. Não é meu. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2011/01/30/nao-meu-359850.asp>. Acesso em: 1 set. 2012. Adaptado.
A palavra picaretaço (𝓁. 10) é formada por:
aglutinação
justaposição
parassíntese
derivação sufixal
derivação prefixal