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Texto I
Um pouco distraído
Ando um pouco distraído, ultimamente. Alguns
amigos mais velhos sorriem, complacentes, e dizem
que é isso mesmo, costuma acontecer com a idade,
não é distração: é memória fraca mesmo, insuficiên-
5 cia de fosfato.
O diabo é que me lembro cada vez mais de coisas
que deveria esquecer: dados inúteis, nomes sem
significado, frases idiotas, circunstâncias ridículas,
detalhes sem importância. Em compensação, troco
10 o nome das pessoas, confundo fisionomias, ignoro
conhecidos, cumprimento desafetos. Nunca sei onde
largo objetos de uso e cada saída minha de casa
representa meia hora de atraso em aflitiva procura:
quede minhas chaves? meus cigarros? meu isquei-
15 ro? minha caneta?
Estou convencido de que tais objetos, embora
inanimados, têm um pacto secreto com o demônio,
para me atormentar: eles se escondem.
Recentemente, descobri a maneira infalível de
20 derrotá-los. Ainda há pouco quis acender um cigarro,
dei por falta do isqueiro. Em vez de procurá-lo freneticamente,
como já fiz tantas vezes, abrindo e fechando
gavetas, revirando a casa feito doido, para acabar
plantado no meio da sala apalpando os bolsos vazios
25 como um tarado, levantei-me com naturalidade sem
olhar para lugar nenhum e fui olimpicamente à cozinha
apanhar uma caixa de fósforos.
Ao voltar — eu sabia! — dei com o bichinho ali
mesmo, na ponta da mesa, bem diante do meu nariz,
30 a olhar-me desapontado. Tenho a certeza de que ele
saiu de seu esconderijo para me espiar.
Até agora estou vencendo: quando eles se escondem,
saio de casa sem chaves e bato na porta
ao voltar; compro outro maço de cigarros na esquina,
35 uma nova caneta, mais um par de óculos escuros; e
não telefono para ninguém até que minha caderneta
resolva aparecer. É uma guerra sem tréguas, mas hei
de sair vitorioso. [...]
Alarmado, confidenciei a um amigo este e outros
40 pequenos lapsos que me têm ocorrido, mas ele me
consolou de pronto, contando as distrações de um
tio seu, perto do qual não passo de um mero principiante.
Trata-se de um desses que põem o guarda-chu-
45 va na cama e se dependuram no cabide, como manda
a anedota. Já saiu à rua com o chapéu da esposa
na cabeça. Já cumprimentou o trocador do ônibus
quando este lhe estendeu a mão para cobrar a passagem.
Já deu parabéns à viúva na hora do velório
50 do marido. Certa noite, recebendo em sua casa uma
visita de cerimônia, despertou de um rápido cochilo
e se ergueu logo, dizendo para sua mulher: “Vamos,
meu bem, que já está ficando tarde.” [...]
Contou-me ainda o sobrinho do monstro que sair
55 com um sapato diferente em cada pé, tomar ônibus
errado, esquecer dinheiro em casa, são coisas que
ele faz quase todos os dias. Já lhe aconteceu tanto
se esquecer de almoçar como almoçar duas vezes.
Outro dia arranjou para o sobrinho um emprego num
60 escritório de advocacia, para que fosse praticando,
enquanto estudante.
— Você sabe — me conta o sobrinho: — O que eu
estudo é medicina...
Não, eu não sabia: para dizer a verdade, só ago-
65 ra o estava identificando. Mas não passei recibo —
faz parte da minha nova estratégia, para não acabar
como o tio dele: dar o dito por não dito, não falar mais
no assunto, acender um cigarro. É o que farei agora.
Isto é, se achar o cigarro.
SABINO, F. Deixa o Alfredo Falar. Rio de Janeiro: Record, 1976.
Em qual das frases abaixo as palavras em destaque pertencem à mesma classe gramatical?
“Alguns amigos mais velhos sorriem” (l. 1-2) – Os mais velhos sorriem.
“e dizem que é isso mesmo” (l. 2-3) – Eu quero aquela mesma.
“troco o nome das pessoas” (l. 9-10) – O caixa não deu o meu troco.
“Nunca sei onde largo objetos de uso” (l. 11-12) – Ontem estive no Largo do Estácio.
“tais objetos, embora inanimados, têm” (l. 16-17) – Vou embora amanhã.