TEXTO 2
E havia uma gramática que dizia assim:
“Substantivo (concreto) é tudo quanto indica
Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá,
caneta”.
Eu gosto é das cousas. As cousas sim!
As pessoas atrapalham. Estão em toda parte.
Multiplicam-se em excesso.
As cousas são quietas. Bastam-se. Não se
metem com ninguém.
(...)
Mas o bom, mesmo, são os adjetivos,
Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.
Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro.
Luminoso.
Sonoro. Lento. Eu sonho
Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos
Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.
Ainda mais:
Eu sonho com um poema
Cujas palavras sumarentas escorram
Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,
Um poema que te mate de amor
Antes mesmo que lhe saibas o misterioso sentido:
Basta provares o seu gosto.
(Mário Quintana. Nariz de vidro. S.P.: Moderna, 1984, p.30-1).
No poema, o autor faz alusões que reforçam idéias a favor:
das inconsistências da gramática.
da dimensão estética da linguagem poética.
da onipotência dos seres humanos.
da hierarquia das coisas da natureza.
da imprevisibilidade de todos os sonhos.