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Da leitura do texto conclui-se que a história da literatura...

Instinto de nacionalidade


1 Quem examina a atual literatura brasileira

reconhece-lhe logo, como primeiro traço, certo instinto de

nacionalidade. Poesia, romance, todas as formas literárias do

4 pensamento buscam vestir-se com as cores do país, e não há

negar que semelhante preocupação é sintoma de vitalidade e

abono de futuro. As tradições de Gonçalves Dias, Porto Alegre

7 e Magalhães são assim continuadas pela geração já feita e pela

que ainda agora madruga, como aqueles continuaram as de

José Basílio da Gama e Santa Rita Durão. Escusado é dizer a

10 vantagem deste universal acordo. Interrogando a vida brasileira

e a natureza americana, prosadores e poetas acharão ali farto

manancial de inspiração e irão dando fisionomia própria ao

13 pensamento nacional.

Esta outra independência não tem Sete de Setembro

nem campo de Ipiranga; não se fará num dia, mas

16 pausadamente, para sair mais duradoura; não será obra de uma

geração nem duas; muitas trabalharão para ela até perfazê-la de

todo. Sente-se aquele instinto até nas manifestações da opinião,

19 aliás mal formada ainda, restrita em extremo, pouco solícita, e

ainda menos apaixonada nestas questões de poesia e literatura.

Há nela um instinto que leva a aplaudir principalmente as obras

22 que trazem os toques nacionais. A juventude literária,

sobretudo, faz deste ponto uma questão de legítimo

amor-próprio. Nem toda ela terá meditado os poemas de

25 Uruguai e Caramuru com aquela atenção que tais obras estão

pedindo; mas os nomes de Basílio da Gama e Durão são

citados e amados, como precursores da poesia brasileira.

28 A razão é que eles buscaram em roda de si os

elementos de uma poesia nova e deram os primeiros traços de

nossa fisionomia literária, enquanto que outros, Gonzaga por

31 exemplo, respirando aliás os ares da pátria, não souberam

desligar-se das faixas da Arcádia nem dos preceitos do tempo.

Admira-se-lhes o talento, mas não se lhes perdoa o cajado e a

34 pastora, e nisto há mais erro que acerto.

Dado que as condições deste escrito o permitissem,

não tomaria eu sobre mim a defesa do mau gosto dos poetas

37 arcádicos nem o fatal estrago que essa escola produziu nas

literaturas portuguesa e brasileira. Não me parece, todavia,

justa a censura aos nossos poetas coloniais, iscados daquele

40 mal; nem igualmente justa a de não haverem trabalhado para a

independência literária, quando a independência política jazia

ainda no ventre do futuro, e mais que tudo à metrópole e à

43 colônia criara a história da homogeneidade das tradições, dos

costumes e da educação. As mesmas obras de Basílio da Gama

e Durão quiseram antes ostentar certa cor local do que tornar

46 independente a literatura brasileira, literatura que não existe

ainda, que mal poderá ir alvorecendo agora.

Reconhecido o instinto de nacionalidade que se

49 manifesta nas obras destes últimos tempos, conviria examinar

se possuímos todas as condições e motivos históricos de uma

nacionalidade literária, esta investigação (ponto de divergência

52 entre literatos), além de superior às minhas forças, daria em

resultado levar-me longe dos limites deste escrito. Meu

principal objeto é atestar o fato atual; ora, o fato é o instinto de

55 que falei, o geral desejo de criar uma literatura mais

independente.

Machado de Assis. Crítica: notícia da atual literatura

brasileira. (1.ª ed., 1873) São Paulo: Agir, 1959, p. 28-34.

Considerando as ideias apresentadas nesse fragmento de texto, julgue os itens que se seguem, relativos à literatura brasileira e à obra de Machado de Assis.

Da leitura do texto conclui-se que a história da literatura brasileira evidencia a descontinuidade entre as manifestações oitocentistas e setecentistas.


C

Certo


E

Errado