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Com relação ao trecho “incendiar-me a fantasia” (l.10), do...

Texto 1A9AAA


1____Estas memórias ficariam injustificavelmente

incompletas se nelas eu não narrasse, ainda que de modo

breve, as andanças em que me tenho largado pelo mundo

4 na companhia de minha mulher e de meus fantasmas

particulares. Desde criança fui possuído pelo demônio das

viagens. Essa encantada curiosidade de conhecer alheias

7 terras e povos visitou-me repetidamente a mocidade e a idade

madura. Mesmo agora, quando já diviso a brumosa porta

da casa dos setenta, um convite à viagem tem ainda o poder

10 de incendiar-me a fantasia.

Na minha opinião, existem duas categorias principais

de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam

13 para buscar. Considero-me membro deste último grupo,

embora em 1943, nauseado pelo ranço fascista de nosso

Estado Novo, eu haja fugido com toda a família do Brasil

16 para os Estados Unidos, onde permanecemos dois anos.

O que pretendo fazer agora é apresentar ao leitor, por

assim dizer, alguns diapositivos e filmes verbais dos lugares

19 por onde passamos e das pessoas que encontramos, tudo assim

à maneira impressionista, e sem rigorosa ordem cronológica.

Usei como título deste capítulo, dedicado a minhas

22 viagens, uma expressão popular que suponho de origem

gauchesca: mundo velho sem porteira. Tenho-a ouvido

desde menino, da boca de velhos parentes e amigos,

25 de tropeiros, peões de estância, índios vagos, gente

da rua... Minha própria mãe empregava-a com frequência

e costumava pontuá-la com um fundo suspiro de queixa.

28 As pessoas em geral pareciam usar essa frase para descrever

um mundo que se lhes afigurava não só incomensurável

como também misterioso, absurdo, sem pé nem cabeça...

31___Parece a mim, entretanto, que na sua origem essa

exclamação manifestava apenas a certeza popular de que

Deus fizera o mundo sem nenhuma porteira a fim de que

34 nele não houvesse divisões e diferenças entre países e povos

— gente rica e gente pobre, fartos e famintos, uns com

terra demais, outros sem terra nenhuma. Em suma, o que

37 o Velho queria mesmo era um mundo que fosse de todo

mundo. É neste sentido que desejo seja interpretada a frase

que encabeça esta divisão do presente volume.

40___Quem me lê poderá objetar que basta a gente

passar os olhos pelo jornal desta manhã para verificar que

o mundo nunca teve tantas e tão dramáticas porteiras como

43 em nossos dias... Mas que importa? Um dia as porteiras

hão de cair, ou alguém as derrubará. “Para erguer outras

ainda mais terríveis” — replicará o leitor cético. Ora, amigo,

46 precisamos ter na vida um mínimo de otimismo e esperança

para poder ir até ao fim da picada. Você não concorda?

Ô mundo velho sem porteira!


Erico Veríssimo. Solo de clarineta: memórias. Porto Alegre:

Globo, v. 2, 1976, p. 57-58 (com adaptações).

Com relação ao trecho “incendiar-me a fantasia” (l.10), do texto 1A9AAA, é correto interpretar a partícula “me” como o


A

agente da ação de “incendiar”.


B

paciente da ação de “incendiar”.


C

prejudicado pela ação de “incendiar”.


D

possuidor de “fantasia”.


E

destinatário de “fantasia”.