Imagem de fundo

O termo grifado em “Mal poderia ele prever o que se...

TEXTO

01 “O bom senso”, escreveu René Descartes na abertura do Discurso do Método , “é a coisa

02 mais bem compartilhada do mundo.” Mal poderia ele prever o que se compartilha hoje nas correntes

03 de WhatsApp, fios do Twitter, comentários de Facebook ou grupos do Telegram. Parece haver de

04 tudo nas redes sociais, menos um pingo de bom senso. Só que todos os que “compartilham” suas

05 opiniões, ideias e — suspiro... — memes julgam tê-lo. Ninguém acha que tem pouco. “O que quer

06 que alguém acredite ser questão de bom senso, acredita com certeza absoluta. Só fica espantado

07 com o fato de que outros discordem”, diz o sociólogo canadense-australiano Duncan J. Watts

08 em Tudo é óbvio — Desde que você saiba a resposta. Lançado em 2011 nos Estados Unidos, o livro

09 analisa as peças que o senso comum nos prega. Instintivo, natural, prático, o bom senso é essencial

10 nas decisões cotidianas individuais: que roupa vestir, como pegar o metrô, quando obedecer às

11 regras, quando ignorá-las e coisas do tipo. Mas se torna um péssimo guia para as decisões de

12 natureza coletiva, relativas a política, direito, economia ou cultura.

13 “Sempre que discutimos sobre política, economia ou a lei, usamos implicitamente nosso bom

14 senso para extrair conclusões sobre como a sociedade será afetada”, afirma Watts. “Em nenhum

15 desses casos raciocinamos sobre como devemos nos comportar, mas sobre como os outros se

16 comportaram — ou se comportarão — em circunstâncias sobre as quais temos no máximo

17 compreensão parcial.” Praticamente todas as discussões nas redes sociais padecem dessa 19 deficiência

18 (...). “O que parece razoável a um pode parecer curioso, bizarro, até repugnante ao outro.”

19 Watts é meticuloso ao despir o senso comum da aura sobrenatural de que se reveste para nos

20 proteger das opiniões discordantes, da complexidade inerente às questões humanas e de nossa

21 resistência para lidar com a ignorância diante de conhecimentos que não dominamos. Desmistifica

22 os agentes racionais da economia, mostra que nem sempre penalidades inibem desvios, prova que

23 os mesmos incentivos podem resultar em reações diferentes dependendo de fatores culturais,

24 descreve como elementos aparentemente irrelevantes alteram decisões, constata que filtramos

25 informações segundo nossas opiniões prévias, revela como somos presas de raciocínios circulares e

26 de toda sorte de viés cognitivo. O principal deles é aquele que dá título ao livro: tudo parece óbvio

27 depois que já aconteceu. Há uma diferença, bem menos óbvia, porém, entre entender o passado e

28 usá-lo para prever o futuro.

29 (...)

30 Mais que tudo, Watts faz um alerta para que ninguém julgue o próprio bom senso algo

31 especial. É comum, diz ele, amigos e colegas aceitarem seu argumento no sentido abstrato, mas o

32 rejeitarem quando aplicado às opiniões que abraçam com força. “É como se os erros do bom senso

33 fossem apenas dos outros, não deles próprios.” O recado de Watts não poderia ser mais sensato: não

34 é porque alguém discorda que é necessariamente idiota, canalha ou, para empregar o lugar-comum,

35 “desonesto intelectualmente”. E não há nenhuma vergonha em mudar de opinião. Questão de bom

36 senso, não parece?


GUROVITZ, Helio. Falta bom senso nas redes sociais ou tem demais? Época. Globo. 20/06/2019. Disponível em: https://epoca.globo.com/falta-bom-senso-nas-redes-sociais-ou-tem-demais-23752985

O termo grifado em “Mal poderia ele prever o que se compartilha hoje...” (linha 02) recebe mesma classificação e tem o mesmo sentido que o termo destacado em:


A
O dogmatismo faz mal à boa convivência.

B
Não há mal nenhum em mudar de opinião.

C
Mal sabe Watts que o livro continua atual.

D
As pessoas falam mal das outras nas rede

E
Mal postou o meme, já recebeu várias curtidas.