Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo.
“Natal na Barca”, de Lygia Fagundes Telles
- Depois de pensar em livros para ler nos dias de sol, “inundados de sol”, do verão, comecei
- a pensar em livros de Natal. Não em livros para dar de presente no Natal — quase todos servem
- para isso —, mas em livros em que o Natal apareça, ainda que só nos fundos, ou que se passem
- em dezembro. Há os clássicos natalinos, como Um conto de Natal, de Charles Dickens, e "O
- presente dos magos", aquele conto tristíssimo de O. Henry em que um casal paupérrimo se
- sacrifica para comprar um presente de Natal um para o outro. Lembrei-me também de O
- apanhador no campo de centeio, que se passa todo poucos dias antes do Natal; e de Madame
- Bovary, porque Emma e Charles casam perto do Natal, quando a província francesa fica branca de
- neve. Pois é, todos esses são livros sobre o Natal nevado... E o chuvoso e abafado Natal dos
- trópicos, cadê? Vieram-me ___ memória dois contos de Lygia Fagundes Telles que li na escola:
- “Natal na barca” e “Dezembro no bairro”. Não me lembrava dos enredos, mas presumi que
- "Dezembro no bairro" era um conto natalino porque tudo em dezembro tem a ver com Natal.
- Lembrei-me dos contos porque, outro dia, passei um tempo considerável namorando a
- caprichosa antologia de Lygia que a Companhia das Letras acaba de publicar: Os contos. O livro
- ainda traz algumas fotos de Lygia, sem dúvida uma das escritoras mais bonitas que a literatura já
- conheceu: Lygia sorrindo, Lygia lendo, Lygia de perfil, Lygia com Hilda Hilst, Lygia encarando a
- câmera. Numa das fotos, Lygia aparece caminhando num lugar bucólico ao lado de seu marido, o
- crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes. Lygia encara ___ câmera; Paulo Emílio olha para ela
- e parece sorrir. Na internet há mais fotos dos dois juntos. Lygia e Paulo Emílio no túmulo de Marx.
- Ela sorri para a câmera; ele sorri para ela. Em outra foto, Lygia descansa a cabeça no ombro de
- Paulo Emílio e olha para a câmera. Paulo Emílio olha para ela. E sorri, meio bobo. Enfim, vamos
- aos contos.... Afinal este pretende ser um texto sobre contos de Natal e não sobre a beleza
- hipnótica de Lygia Fagundes Telles.
- “Natal na barca” é narrado por uma mulher. Decerto uma mulher elegante, como Lygia. A
- narradora fuma (o conto é de 1958) e carrega uma pasta (de advogada?). No posfácio de Os
- contos, a crítica literária Walnice Nogueira Galvão afirma que “ler Lygia Fagundes Telles sem
- visualizar uma mulher é difícil” e arrisca até uma descrição dessa narradora de “Natal na barca”:
- "Uma persona discreta, reticente e reservada, semelhante ___quela que escreve. Com o corte
- pajem, adequado a seu cabelo liso, sem enfeites nem artifícios, blazers de linha clássica, camisas
- claras, saias de cor cinza. Essa é a narradora que visualizamos ao ler sua ficção". No conto, a
- narradora elegante faz uma viagem de barca, na noite de Natal, na companhia de um bêbado e
- de uma professora pobre com um filho doente nos braços (uma imagem da Virgem Maria com seu
- bebê divino?).
- A narradora não quer falar com ninguém, não quer envolver-se nos "tais laços humanos",
- mas acaba conversando com a jovem mãe, que precisa levar seu filho ao médico. A mãe conta
- que, um ano antes, perdera seu filho mais velho, de 4 anos, e fora abandonada pelo marido, mas
- matinha a fé: "Deus nunca me abandonou". A fé da mãe pobre desconcerta a narradora
- requintada, que talvez depositasse sua confiança na solidez de pastas elegantes e cigarros. Ao se
- aproximar para ver o bebê, ela o percebe imóvel e é tomada pela certeza desesperadora de que
- estava morto e a mãe percebera. Será que sua fé simples a salvaria agora? O conto termina meio
- ambíguo. Outra vez, o leitor (e a narradora) não sabe direito o que aconteceu. Um milagre de
- Natal, talvez?
- Além do Natal, esse conto apresenta o suspense, a ambiguidade. O leitor termina sem
- saber direito o que aconteceu. Acontece mesmo um milagre em "Natal na barca" ou a narradora
- elegante só se confundiu? O leitor chega ao fim do conto sem saber direito como chegou lá.
- Parece que faltou alguma informação, que ele perdeu alguma coisa, que não reparou no que
- acontecia nos fundos do conto, nas entrelinhas. A narrativa elegante e furtiva de Lygia hipnotiza o
- leitor, prende-lhe ___ atenção com os detalhes, afasta as perguntas curiosas e o conduz até uma
- conclusão inconclusiva, que perturba e faz pensar. "Quando foi que a narrativa tomou o rumo que
- tomou? Será que eu me distraí?", pensa o leitor. Talvez aí ele entenda por que Paulo Emílio não
- conseguia tirar seus olhos sorridentes de Lygia.
Ruan de Sousa Gabriel. 12/12/2018. Disponível em https://epoca.globo.com. Adaptado)