Atenção: Considere o texto abaixo
para
responder às questões de números 6 a
10.
Ilusões do mundo
Afinal, é mesmo assim: quase
sempre nos
iludimos. Aquelas nuvens que me pareciam tão
de passagem reuniram-se em
grupos compactos e prepararam um pequeno
dilúvio sobre estes vales de Lindoia. Assim,
os forasteiros, surpreendidos, ficaram
privados de seus passeios, e as crianças, em
turbilhão, começaram a aparecer por baixo de
mesas. E foi por isso que os salões do
hotel se viram repletos de alaridos.
Imagina-se que deva
ser penoso para um
turista ver-se de repente privado das
alegrias do ar livre. Mas as virtudes destas
águas de Lindoia são tamanhas que aqui
ninguém se perturba com os contratempos.
Benditas águas... Benditas não só por esse
otimismo que propiciam como pelas curas
reais que se lhes atribuem. Este conta que
se achava repleto de cálculos e agora está
livre
deles. O que se amofinava com as suas
alergias, já nem se lembra mais delas. Tudo
graças a copinhos de água, a banhos de
imersão e a não sei quantas outras
modalidades de aplicações.
Aprecio essas maravilhas que me
são
referidas, mas na verdade o que mais me
impressiona é o bom humor que observo em
redor de mim. Se as pessoas esbarrarem umas
nas outras, cometerem, enfim, esses pequenos
desatinos que se observam no
convívio dos hotéis, há uma cordialidade
generalizada que arredonda as arestas da
agressividade.
Acontece, porém, que encontro
um sábio que
anda perdido sob estas árvores. E o sábio
não participa do otimismo geral. O
sábio está desgostoso com os apartamentos
que já se vão acumulando neste lugar de
fontes privilegiadas. Ele vê as coisas em
profundidade, e suas previsões são
desanimadoras. A bacia destas águas está
ameaçada pelas construções que vão sendo
feitas
indiscriminadamente. A floresta primitiva
está quase desaparecida, e não está sendo
recomposta, para a devida proteção dos
mananciais. Os sábios são, como os artistas,
quase sempre melancólicos. Porque avistam
mais longe, porque antes que as coisas
aconteçam já estão padecendo com as suas
consequências... O sábio amava as águas
miraculosas. Estava sofrendo por elas. Era a
única pessoa triste, no meio de tanto bom
humor. Mas era a pessoa mais esclarecida. E,
por sua causa, e por sua sapiência, aquele
paraíso me pareceu precário, e fiquei também
inclinada sobre Lindoia, carpindo, desde já,
a possibilidade do seu desaparecimento...
(Adaptado de: MEIRELES, Cecília.
Ilusões do
mundo. São Paulo: Global Editora, 2014,
1ª
edição digital)