Leia este texto para
responder às questões de 01 a 09.
Natal na barca
Não quero nem devo
lembrar aqui por que
me encontrava naquela
barca. Só sei que em redor tudo era silêncio
e treva. E que
me sentia bem naquela solidão. Na embarcação
desconfortável,
tosca, apenas quatro passageiros. Uma
lanterna nos iluminava
com sua luz vacilante: um velho, uma mulher
com uma criança
e eu.
O velho, um bêbado
esfarrapado,
deitara-se de comprido no
banco, dirigira palavras amenas a um vizinho
invisível e agora
dormia. A mulher estava sentada entre nós,
apertando nos braços
a criança enrolada em panos. Era uma mulher
jovem e pálida.
O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça
dava-lhe o aspecto
de uma figura antiga.
Pensei em falar-lhe
assim que entrei na barca. Mas já devíamos
estar quase no fim da viagem e até aquele
instante não me
ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem
combinava mesmo com
uma barca tão despojada, tão sem artifícios,
a ociosidade de um
diálogo. Estávamos sós. E o melhor ainda era
não fazer nada,
não dizer nada, apenas olhar o sulco negro
que a embarcação ia
fazendo no rio.
Debrucei-
me na grade de
madeira carcomida. Acendi um cigarro.
Ali estávamos os quatro, silenciosos como
mortos num
antigo barco de mortos deslizando na
escuridão. Contudo, estávamos
vivos. E era Natal.
A
caixa de fósforos
escapou-me das mãos e quase resvalou
para o rio. Agachei-me para apanhá-la.
Sentindo então alguns
respingos no rosto, inclinei-me mais até
mergulhar as pontas dos
dedos na água.
— Tão gelada — estranhei,
enxugando a mão.
— Mas de
manhã
é quente.
Voltei-me para a
mulher que
embalava a criança e me observava
com um meio sorriso. Sentei-me no banco ao
seu lado.
Tinha belos olhos claros,
extraordinariamente brilhantes. Reparei
em que suas roupas (pobres roupas puídas)
tinham muito caráter,
revestidas de uma certa dignidade.
— De manhã esse rio é quente —
insistiu ela, me encarando.
—
Quente?
— Quente e
verde, tão verde que a primeira vez que
lavei nele
uma peça de roupa pensei que a roupa fosse
sair esverdeada. É a
primeira vez que vem por estas
bandas?
Desviei o olhar para o chão de largas
tábuas gastas. E respondi
com uma outra pergunta:
—
Mas a
senhora mora aqui por perto?
— Em Lucena. Já tomei esta barca
não sei quantas vezes, mas
não esperava que justamente hoje…
A
criança agitou-se, choramingando. A mulher
apertou-a
mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabeça com
o xale e pôs-se a
niná-la com um brando movimento de cadeira
de balanço. Suas
mãos destacavam-se exaltadas sobre o xale
preto, mas o rosto
era tranquilo.
— Seu filho?
— É. Está doente, vou ao
especialista, o farmacêutico de Lucena
achou que eu devia ver um médico hoje mesmo.
Ainda ontem
ele estava bem, mas piorou de repente. Uma
febre, só febre…
—
Levantou a cabeça com energia. O queixo
agudo era altivo,
mas o olhar tinha a expressão doce. — Só sei
que Deus não vai
me abandonar.
— É o
caçula?
— É o único. O meu
primeiro morreu o ano passado. Subiu
no muro, estava brincando de mágico quando
de repente avisou,
vou voar! E atirou-se. A queda não foi
grande, o muro não era
alto, mas caiu de tal jeito… Tinha pouco
mais de quatro anos.
Atirei o cigarro na
direção do rio, mas
o toco bateu na grade
e voltou, rolando aceso pelo chão. Alcancei-
o com a ponta do
sapato e fiquei a esfregá-lo devagar. Era
preciso desviar o assunto
para aquele filho que estava ali, doente,
embora. Mas vivo.
— E
esse? Que idade tem?
— Vai
completar um ano. — E, noutro tom,
inclinando a cabeça
para o ombro: — Era um menino tão alegre.
Tinha verdadeira
mania com mágicas. Claro que não saía nada,
mas era muito
engraçado… Só a última mágica que fez foi
perfeita, vou voar!
disse abrindo os braços. E voou.
Levantei-me. Eu queria ficar só
naquela
noite, sem lembranças,
sem piedade. Mas os laços (os tais laços
humanos) já ameaçavam
me envolver. Conseguira evitá-los até aquele
instante. Mas
agora não tinha forças para rompê-
los.
— Seu marido está à sua
espera?
— Meu marido me
abandonou.
Sentei-me e tive vontade de
rir. Era
incrível. Fora uma loucura
fazer a primeira pergunta, mas agora não
podia mais parar.
— Há
muito tempo? Que seu marido…
—
Faz uns seis meses. Imagine que nós
vivíamos tão bem,
mas tão bem. Quando ele encontrou por acaso
essa antiga namorada,
falou comigo sobre ela, fez até uma
brincadeira, a Ducha
enfeiou, de nós dois fui eu que acabei
ficando mais bonito...
E não falou mais no assunto. Uma manhã ele
se levantou como
todas as manhãs, tomou café, leu o jornal,
brincou com o menino
e foi trabalhar. Antes de sair ainda me
acenou, eu estava na cozinha
lavando a louça e ele me acenou através da
tela de arame da
porta, me lembro até que eu quis abrir a
porta, não gosto de ver
ninguém falar comigo com aquela tela no
meio… Mas eu estava
com a mão molhada. Recebi a carta de
tardinha, ele mandou
uma carta. Fui morar com minha mãe numa casa
que alugamos
perto da minha escolinha. Sou
professora.
Fixei-me nas nuvens tumultuadas que
corriam
na mesma direção
do rio. Incrível. Ia contando as sucessivas
desgraças com tamanha
calma, num tom de quem relata fatos sem ter
realmente
participado deles. Como se não bastasse a
pobreza que espiava
pelos remendos da sua roupa, perdera o
filhinho, o marido e
ainda via pairar uma sombra sobre o segundo
filho que ninava
nos braços. E ali estava sem a menor
revolta, confiante. Intocável.
Apatia? Não, não podiam ser de uma apática
aqueles olhos
vivíssimos, aquelas mãos enérgicas.
Inconsciência? Uma obscura
irritação me fez andar.
[...]
TELLES,
Lygia Fagundes. Antes do baile verde.
7 ed. Rio de Janeiro: José Olympio,
1982,
p. 74-76. Fragmento.