Leia este texto para responder às questões de 01 a
09.
O padeiro
Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a
chaleira no
fogo para fazer café e abro a porta do apartamento — mas não
encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter
lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a “greve do pão
dormido”. De resto não é bem uma greve, é um lock-out,
greve
dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que
obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido
conseguirão não sei bem o que do governo.
Está bem. Tomo o meu café com
pão dormido, que não é tão
ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem
modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o
pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para
não incomodar os moradores, avisava gritando:
— Não é ninguém, é o padeiro!
Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar
aquilo?
“Então você não é
ninguém?”
Ele abriu um
sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de
ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma
casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa
qualquer,
e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem
era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “não é
ninguém, não senhora, é o padeiro”. Assim ficara sabendo que
não era ninguém...
Ele me
contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda
sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando
com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo
eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era
pela
madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois
de uma passagem pela oficina — e muitas vezes saía já levando
na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal
ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.
Ah, eu era rapaz! Eu era
só um rapaz naquele tempo! E às
vezes me julgava importante porque, no jornal que levava para
casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem
assinar,
ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão
estariam
bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração
eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil
e
entre todos alegre; “não é ninguém, é o padeiro!”
E assobiava pelas
escadas.
BRAGA, R. O padeiro.
In: ANDRADE, C. D. et al. Para gostar de
ler: crônicas. São Paulo:
Ática, 1979. p. 63-64.