Imagem de fundo

Considerando a gramática normativa da Língua Portuguesa, há...

Céus e terras

Todos somos vítimas de ideias erradas a nosso respeito. No meu caso, não sei por que, volta e meia apelam para mim em busca de conselhos sobre paixão. É um mal ou um bem? Devemos amar sem paixão? O limite entre o amor e o desvario é tênue ou profundo? Sinceramente, quem sou eu para responder a questão tão alienada, digna daquele concílio bizantino que discutia o sexo dos anjos?

O amor é necessário, a paixão é descartável. Mas é bom quando acontece. Todos os outros valores ficam irrelevantes – a fome que mata em Biafra, as torres do World Trade Center desabando, o nosso time sendo rebaixado à segunda divisão.

Tive um amigo que viveu uma paixão durante sete anos, como aquele Jacó do soneto de Camões, que se amarrou em Raquel, “serena e bela”. Não tomou conhecimento do assassinato de Kennedy, do Golpe Militar de 64, dos Beatles, da morte de Guevara, do AI-5, do tricampeonato em 1970.

Possuído pela paixão, a Raquel dele chamava-se Marlene e morava no Méier. Ele vivia, respirava, sofria e gozava num só sentido, num único rumo: ela. O vestido que estaria usando, com quem sairia naquele sábado, a música que estaria ouvindo.

Ele flutuava no espaço, como um ectoplasma bêbado, somente pensando nela, mesmo quando estava com ela. Até que um dia a paixão acabou, despejando-o novamente na terra e no cotidiano de todos nós.

Encontrei-o então, furioso, queixando-se do ralo entupido de sua cozinha. Pagara adiantado a um bombeiro para fazer o serviço, o sujeito levara o dinheiro, esburacara o chão à procura do entupimento e desaparecera havia três dias. Como pode? Queria ir à polícia, escrever aos jornais, mover céus e terras, os mesmos céus e as mesmas terras que, por sete anos, não existiam para ele, muito menos um entupido ralo de cozinha.

A paixão tem isso de bom. Céus e terras deixam de existir, ficamos entupidos como um ralo que não escoa nosso desatino.

(CONY, Carlos Heitor. Céus e terras. In: PINTO, Manuel da Costa (Org.). Crônica Brasileira Contemporânea. São Paulo: Moderna, 2008.)

Considerando a gramática normativa da Língua Portuguesa, há ERRO de grafia em:


A
O amor é feito de trocas e concensos.

B

A paixão é um sentimento bastante profundo e complexo.


C

A paixão é considerada a manifestação do fenômeno da projeção.


D

Quando estamos apaixonados somos atraídos pela idealização que fazemos do próximo.