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As questões 21 a 46 tomam por base o texto 3.
Texto 3
MEUS ERROS DOS OUTROS
“A luta contra o erro tipográfico tem algo de homérico. Durante a revisão, os erros se escondem, fazem-se positivamente invisíveis. Mas, assim que o texto é publicado, tornam-se visibilíssimos, verdadeiros sacis a nos botar a língua em todas as páginas.”
(Monteiro Lobato)
&am p;nb sp; Era Monteiro Lobato quem dizia que a tarefa de revisor é das mais ingratas que pode existir. Entra ano, sai ano, mesmo com todo o avanço da tecnologia, pois hoje podemos contar com revisores automáticos no computador, ainda assim, lá estão eles, os erros, todos dando as caras depois de publicados.
Deve mesmo ser coisa de saci, traquinagem destes capetinhas que moram nas gráficas dos jornais. O problema, no entanto, não são os erros em si, mas a culpa por eles. Desde que aceitei esta ingrata tarefa de ser revisor, elogio nenhum ouvi pelas ‘descordâncias’ verbais e nominais que corrigi. Muito menos por não deixar sujeitos separados de seus predicados por vírgulas que surgem como Muros de Berlim, a fim de desconectar o sentido das idéias que tentam expressar nossos redatores. Tampouco serei reconhecido por reescrever períodos truncados, desfazer ambiguidades ou trocar palavras por outras que se encaixariam melhor no contexto semântico das orações. Não receberei medalhas por expulsar as crases clandestinas que entram constantemente de penetra em construções como “de 9h às 11h”. Menos ainda receberei sequer um “muito obrigado por adequar minha ortografia às novas normas do acordo ortográfico”. Bobagem. Dirão que sou pago pra isso. E de fato é assim.
Mas encontre um leitor ou colega de trabalho uma simples, uma simples troca de letra em uma palavra... um erro banal como Avenida Roberto ‘Silverio’ em vez de (por falar em “em vez de”, um outro erro constante é usar “ao invés de” para tudo, que só deve ser usado para opor idéias antônimas) Roberto Silveira. Pronto! Isto é o suficiente para quererem a cabeça do revisor, no caso este que vos escreve.
A maioria dos erros surge não por total falta de conhecimento. Não, não se trata exatamente de desconhecer os mecanismos da língua, que é bastante complexa e nos faz rebolar por mais de uma vez durante a redação do texto, mas sim da falta de uma pré-revisão antes de entregá-lo ao editor. Porque, convenhamos, revisar é sempre de menos. Passe o texto por dois, quatro, seis, oito olhos, por quantas vezes que forem, e eles, os erros, não aparecem. As palavras se combinam de forma estranha, camufladas, e te fazem crer que tudo está em ordem. Isto até o dia seguinte, até o primeiro engraçadinho chegar pelas minhas costas dizendo: “olha, saiu um erro na página...”, ou um leitor, que não tendo o que criticar, se dá ao trabalho de sentar a bunda de fronte ao computador e redigir um email desaforado – e cheio de erros, diga-se de passagem – para reivindicar a correção de qualquer errinho bobo que seja, como um “dispensa” no lugar de “despensa”, uma escorregadela na grafia de duas palavras de grafias e pronúncias semelhantes, mas de significados diferentes.
Diz o velho ditado que “errar é humano; pôr a culpa em outro é estratégico”. Sendo assim, quando erram os redatores, estes põem a culpa no revisor. E eu, não tendo outra saída, digo sem nenhum embaraço: a culpa é dos sacis, que de madrugada mexem em tudo que é palavra. E podem apostar que, nesta noite, terão mexido nestas também.
(Texto de Thiago Mercier, publicado no jornal A Voz da Serra online. Referência completa omitida por ser objeto de avaliação)Em “...a tarefa de revisor” (linha 01), a palavra revisor é empregada sem artigo, porque:
é usada em sentido genérico, não-referencial.
se trata de referente desconhecido do leitor.
funciona como complemento nominal.
constitui informação nova no contexto.
a primeira palavra já está determinada.