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"Michele Dias, testemunha atenta aos acontecimentos da...

Leia o texto e responda as questões de 9 a 15.

O poder público fecha a biblioteca da comunidade; prefere atingir a juventude apenas com balas e repressão.

(XICO SÁ)

"Vocês me desculpem, sou uma desaletrada, mas agora tomei gosto por dizer as coisas, por contar a minha história", diz Lindacy Menezes, 64 anos, doméstica, ao revelar a descoberta da literatura. Criada por uma dona de um bordel no Recife, a pernambucana vive na favela da Rocinha, Rio, desde os anos 1970. Era uma das mais animadas vozes de um encontro do projeto "Você é o que lê", na noite de quinta-feira, dia 1°, na Garagem das Letras, centro cultural de moradores da comunidade carioca.

"Desaletrada, nem sabia o que era texto, o que era poema", segue Lindacy, antes de mandar os seus versos para a platéia. Convidado especial do evento, o jornalista e escritor Zuenir Ventura, autor de "Cidade Partida", clássico moderno sobre a violência brasileira, escuta atentamente a prosódia e comenta: "Isso é Guimarães Rosa!"

A menina criada no cabaré da zona portuária recifense é uma narradora de primeira. Há cinco anos soube de uma oficina da Festa Literária das Periferias (Flup) e resolveu mandar umas linhas para concorrer a uma vaga. Ditou "umas besteirinhas" para a sua filha - não sabia usar o computador - e foi selecionada. "Depois disso, não parei e não paro nunca mais". Aguarde o livro com a saga dessa mulher. Estarei na fila de autógrafos.

Participo do "Você é o que lê" na companhia de Gregório Duvivier e Maria Ribeiro. A edição da Rocinha foi uma das mais comoventes nestes três anos de estrada. Esteve mais para um "Você é o que ouve". Há uma fome de contar histórias naquele cenário onde muitos becos e vielas estão manchados de sangue. Sangue de gente muito jovem. Meninos imprensados entre policiais e bandidos. É preciso contar a própria história para que não vingue apenas o relato oficial dos boletins de ocorrência. Viver é o direito de narrar.

Michele Dias, testemunha atenta aos acontecimentos da Rocinha, lembra o caso do seu tio Amarildo, pedreiro desaparecido, em julho de 2013, depois de ser arrastado por PMs à Unidade de Polícia Pacificadora, UPP. Durante três meses, o poder estadual tentou emplacar muitas versões fictícias. Em outubro, promotores revelaram o que a favela inteira tentava relatar: Amarildo havia sido morto pela polícia.

Outra obra de ficção do Estado, com auxílio do departamento de mentiras municipais, é o funcionamento da Biblioteca Parque. Aberta em 2012, sob influência e modelo dos centros de leitura de Bogotá e Medellín (Colômbia), fechou as portas na cara da comunidade desde o ano passado. A alegação é de falta de recursos para bancar os funcionários. O prefeito Crivella, em visita à favela, prometeu, em aliança com a secretaria estadual de Cultura, reabrir o edifício. Ficou apenas na pregação vazia, para variar.

Bibliotecárias contaram o efeito devastador do fechamento do espaço cultural que reunia centenas de moradores atraídos pelos livros, a DVDteca, o cineteatro, estúdio de gravações, internet comunitária, cozinha-escola etc. Um desastre social, resumiram mais uma tragédia carioca e brasileiríssima. Dinheiro para as balas do extermínio da juventude periférica, é sempre bom lembrar, nunca falta.

Como se cantasse "a dor da gente não sai no jornal", versos de Chico Buarque, a Rocinha é um mar de histórias e quer contar a sua própria versão das ocorrências. Obrigado, Lindacy, pelas lições de existência. Ah se todos os ditos letrados fossem iguais a você.

"Michele Dias, testemunha atenta aos acontecimentos da Rocinha, lembra o caso do seu tio Amarildo, pedreiro desaparecido, em julho de 2013, depois de ser arrastado por PMs à Unidade de Polícia Pacificadora, UPP."

Sobre o uso da crase no trecho em destaque assinale a alternativa CORRETA.


A

A crase foi utilizada por haver um encontro entre preposição a e o artigo


B

A crase foi utilizada por ocorrência de uma locução prepositiva com núcleo feminino.


C

A crase foi utilizada por ocorrência de um pronome possessivo feminino antecedido de preposição a.


D

A crase foi utilizada por ocorrência de um encontro da preposição a com um pronome demonstrativo.