Leia o texto “Infância na
praia”, de
Danuza Leão, para responder
às questões de números 01 a
11.
Não se pode dar corda
à memória: a gente
começa brincando,
mas ela não faz cerimônia e vai invadindo
nossas
mentes e nossos corações. Para mim são,
ainda e sempre,
as recordações da infância na praia muito
mais fortes do que
eu podia imaginar.
No terreno das
brincadeiras, a mais comum
era o caldo:
quem não se lembra do terror de levar
um?
Também se
brincava de jogar areia nos outros, aos
gritos, para horror dos
adultos, e a pior de todas: se deixar ser
enterrada ficando só
com a cabeça de fora, e todo mundo fingir
que ia embora, só
de maldade, deixando você sozinha e
esquecida.
No terreno mais leve, a
grande proeza era
mergulhar
e passar por baixo das pernas abertas da
prima, lembra?
Aliás, essa é uma raça em extinção: as
primas. Elas eram
muitas, e a convivência, intensa. Hoje,
nas cidades grandes,
existem poucas tias e pouquíssimas
primas.
As crianças catavam conchas
para colar, e
era difícil fazer
um buraquinho com um prego e um
martelinho, sem quebrar
a concha, para passar o barbante. As cor-
de-rosa eram as
mais lindas, e, quando se encontrava um
búzio, era uma verdadeira
festa. As conchas acabaram; onde terão ido
parar?
No final da tarde, a praia já
sem sol,
voltavam os barcos
de pesca: as pessoas ficavam em volta
comprando o peixe
nosso de cada dia, que seria feito naquela
mesma noite.
Naquele
tempo não havia nem alface nem tomate nem
molho
de maracujá, e para dar uma corzinha na
comida se usava
colorau – já ouviu falar?
Camarão só
às vezes, mas, em compensação,
havia
cações
com a carne rija, que davam uma moqueca
muito
boa. Os peixes eram vendidos por lote, não
custavam quase
nada, e o que sobrava era distribuído ali
mesmo. Mas os fregueses
eram honestos, e ninguém deixava de
comprar para
levar algum de graça, no final das
transações.
Às vezes corria um boato
assustador: de
que o mar estava
cheio de águas-vivas, o que era um
acontecimento. Água-
-viva é uma rodela gelatinosa que, segundo
diziam, se encostasse
no corpo, queimava como fogo. Ia todo
mundo para a
beira da água tentando ver alguma, mas
ninguém entrava no
mar, de medo. No dia seguinte, a areia
estava cheia delas, e
com uma varinha a gente ficava mexendo,
sempre com muito
cuidado: afinal, era uma gelatina, mas
viva – uma coisa mesmo
muito estranha.
Para evitar
queimaduras, se usava óleo
Dagele, e se
alguém
dissesse que anos depois uma massagem de
algas,
daquelas mesmas algas verdes e marrons com
as quais
a gente dançava dentro da água, não
custaria menos de
US$ 100 em Nova York ou Paris, ninguém
acreditaria.
Naquele tempo não havia
refrigerantes, não
se tomava
água gelada, e as crianças rezavam uma
ave-maria antes de
dormir, sendo que algumas
ajoelhadas.
Não havia abajur nas mesas
de cabeceira e
na hora de dormir
se apagava a luz do teto, com sono ou sem
sono, e ficávamos
com os pensamentos voando, esperando o
sono chegar.
E ninguém se queixava de
nada, até porque
não havia do
que se queixar, porque era assim e
pronto.
(Folha de S.Paulo, 17.04.2005.
Adaptado)