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A honra passada a limpo
01 Sou compulsiva, eu sei. Limpeza e arrumação.
02 Todos os dias boto a mesa, tiro a mesa. Café, almoço, jantar. E pilhas de louças na pia, e espumas
03 redentoras.
04 Todos os dias entro nos quartos, desfaço camas, desarrumo berços, lençóis ao alto como vela. Para
05 tudo arrumar depois, alisando colchas de crochê.
06 Sou caprichosa, eu sei. Desce o pó sobre os móveis. Que eu colho na flanela. Escurecem-se as
07 pratas. Que eu esfrego com a camurça. A aranha tece. Que eu enxoto. A traça rói. Que eu esmago. O cupim
08 voa. Que eu afogo na água da tigela sob a luz. 09 E de vassoura em punho gasto tapetes persas.
10 Sou perseverante, eu sei. À mesa que ponho ninguém senta. Nas camas que arrumo ninguém
11 dorme. Não há ninguém nesta casa, vazia há tanto tempo.
12 Mas sem tarefas domésticas, como preencher de feminina honradez a minha vida?
COLASANTI, Marina. Contos de amor rasgado. Rio de Janeiro: Rocco, 1986, p. 187.
Marque a frase em que a palavra grifada constitui o antônimo de “perseverante” (l. 10).
Quando se trata de manter a casa limpa, sou uma mulher incansável!
Às vezes, sinto-me tão volúvel por me preocupar com coisas tão fúteis...
Vejo, todos os dias, como sou persistente em detalhes de uma vida tão vazia.
A vontade insistente de manter esta casa limpa dá significado a minha existência!