AS QUESTÕES DE 1 A 15 ESTÃO RELACIONADAS AO TEXTO ABAIXO
TEXTO
- Não quero aqui contestar o fato de que os colonos europeus tenham usado trabalho escravo africano durante
- séculos no Brasil. Negros eram capturados de suas tribos na África, cruzavam o Oceano Atlântico em condições
- precárias, eram vendidos e forçados a trabalhar para seus senhores brancos por gerações até o fim do Império.
- As consequências morais desse triste capítulo da história podem ser analisadas por duas óticas diferentes. A
- primeira é a adotada pela esquerda em geral e pelo movimento ativista negro em particular, que acredita que ações e
- responsabilidades são atribuídas a grupos de pessoas com características comuns. Por essa ótica, o fato de brancos terem
- escravizado negros criou uma dívida moral e histórica entre esses dois grupos, que deve ser paga por quem hoje é branco
- para quem hoje é negro.
- Essa análise fundamentaria as discriminações (sob o eufemismo de ações afirmativas) que vemos hoje,
- particularmente a reserva de vagas para negros em universidades e concursos públicos, sob pretexto de acerto dessa
- dívida histórica.
- A segunda ótica com que podemos ver a questão é a ótica libertária. Por ela, direitos, obrigações, ações e
- responsabilidades são atribuídas a cada pessoa individualmente — não a grupos de pessoas. Ninguém, em hipótese
- alguma, é chamado para reparar um mal causado por outra pessoa, mesmo que ambos compartilhem a mesma cor da
- pele, sejam da mesma família, sejam amigos, ou torçam para o mesmo time. Jamais.
- Olhando por esse prisma, não haveria dívida histórica moral dos brancos de hoje para os negros de hoje,
- exatamente porque esses brancos não são obrigados a pagar por injustiças cometidas por outros brancos; e mesmo que
- fossem, não seria para os negros de hoje, que também são outros que não aqueles que foram vítimas da escravidão.
- Ativistas do movimento negro, quando confrontados com essa argumentação, trocam o discurso moral pelo
- material. Segundo eles, o trabalho escravo negro beneficiou materialmente os brancos, e essa riqueza permitiu que os
- descendentes dos senhores de escravos estejam injustamente em melhor situação financeira do que os descendentes dos
- escravos. Aqui, haveria novamente uma dívida histórica a saldar.
- O problema desse argumento é que ele repousa sobre uma visão curiosamente estreita da história. Eu mesmo
- tive a oportunidade de visitar o Zimbábue, na África, e andei em meio às ruínas do Reino do Zimbábue dos séculos 13
- a 15. Visitei a câmara onde eram mantidos os escravos, o local onde eram mantidas todas as mulheres do rei, e as
- fortificações que defendiam o rei de invasores externos.
- Também estive na Etiópia, em meio a ruínas e belíssimas igrejas onde outrora fora o Império Etíope que durou
- impressionantes 800 anos até o final do século 20. Como em quase todo o resto da África, o império escravizou, por
- milhares de anos, outros povos que conquistava.
- Entre os europeus, por milênios, pessoas eram feitas escravas por dívidas ou guerra. Uma proporção
- significativa da população urbana da Grécia antiga era formada por escravos, quase todos brancos. Roma também
- incorporava novos escravos a seu império por onde avançava, brancos ou negros do norte da África. Romanos brancos
- que caíssem reféns em guerras com povos africanos também eram escravizados.
- Os próprios negros, no Brasil, quando conseguiam sua libertação, tentavam comprar ou capturar outros negros
- como escravos. Zumbi, herói do movimento negro, foi tanto escravo como senhor de escravo — muitos outros também.
- Como decidir de que lado da dívida histórica estão seus atuais descendentes?
- Uma visão mais abrangente e menos maniqueísta da história nos mostra, portanto, que a escravidão foi prática
- recorrente por muito da existência humana. Não tenho dados para embasar essa afirmação (nem seria possível tê-los),
- mas se formos levar a sério esse argumento de beneficiamento material por escravidão e traçar a árvore genealógica de
- cada um de nós até o começo dos tempos, tenho certeza que todos nós temos ascendentes que já foram escravos, e todos
- nós temos também ascendentes que já foram senhores de escravos. Todos nós, brancos e negros, já enriquecemos
- injustamente, e injustamente enriquecemos outros. O que nos diferencia, por esse critério, é a proporção entre cada um
- dos dois — igualmente impossível de se determinar para cada indivíduo.
- Por fim, nem todos os brancos que hoje vivem no Brasil são descendentes de senhores de escravos do Império.
- Muitos imigrantes chegaram no século passado e não se beneficiaram em nada com o trabalho escravo dos negros de
- séculos anteriores. Mesmo assim, na visão do movimento ativista negro, seus descendentes têm uma dívida histórica
- com os negros.
- Isso para não falar de toda a mistura entre raças e entre correntes migratórias que é o nosso povo brasileiro. É
- fácil perceber que é impraticável desenhar políticas públicas verdadeiramente preocupadas em corrigir qualquer tipo de
- injustiça que a escravidão tenha causado. A história da humanidade é recheada de atrocidades de todo tipo, condenáveis
- por qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade — e, muito mais importante, com a visão de mundo liberal que
- temos hoje.
- Não há como saber quem é mais vítima e quem é mais agressor, mesmo que se escolha enxergar pela ótica
- coletivista de responsabilidades. Reconhecer que essas atrocidades aconteceram, mas que não há nada que possa ser
- feito para compensar suas reais vítimas é o primeiro passo para evoluirmos rumo a uma sociedade próspera para todos,
- pacífica e com menos rancor. Em muitos lugares do mundo, longe das universidades públicas brasileiras, nada ou muito
- pouco se evoluiu nesse sentido. Não façamos o mesmo.
POR FELIPE LUNGOV – FONTE: https://www.institutoliberal.org.br/blog/o-mito-da-divida-historica-entre-brancos-e-negros/