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A pobreza impacta o cérebro, que impacta a linguagem, que impacta a leitura
Não é nenhuma surpresa constatar que a pobreza impacta
o desempenho escolar das crianças. Inúmeros trabalhos têm
comprovado essa relação, a começar pelas obras do famoso
e visionário pensador soviético do século passado Lev Vygotsky
5 (1896-1934). A questão é conhecer os mecanismos que
medeiam essa influência do ambiente sobre a educação.
Os aspectos socioeconômicos são considerados fatores
determinantes distais. É necessário conhecer os fatores
proximais, para que o enfrentamento do problema seja mais
10 dirigido: não apenas para superar a pobreza, obra de gerações,
mas também para mitigar seus efeitos imediatos, no curto
prazo, beneficiando as gerações atuais que não podem
esperar.
Nesse sentido, chamou-me a atenção o trabalho recém
15 divulgado de pesquisadores norte-americanos da Universidade
Columbia, que buscaram esclarecer os fatores mediadores da
influência do nível socioeconômico das famílias sobre o
desempenho escolar de suas crianças.
A hipótese que orientou o trabalho foi de que o nível
20 socioeconômico determina a oferta de estímulos linguísticos
no âmbito da família, que, por sua vez, influencia a plasticidade
cerebral das suas crianças, e, por meio dela, o desempenho
linguístico. Por consequência, a aprendizagem da leitura. Uma
cadeia de fatores influentes uns sobre os outros, impactando
25 ao final o desempenho escolar das crianças.
Os pesquisadores selecionaram crianças entre 5 e 9 anos
de famílias de Nova York com diferentes níveis de renda
familiar, e colocaram na roupa das crianças — com autorização
das famílias, é claro — um minigravador capaz de registrar até
30 16 horas das conversas em casa. Gravaram em finais de
semana, para avaliar por meio de um programa especialmente
concebido para isso, a oferta linguística doméstica. Tratava-se
de saber quanto os pais conversavam com as crianças, e,
especialmente, quanto as crianças respondiam aos pais.
35 Além disso, as crianças foram ao laboratório para a
aquisição de imagens de ressonância magnética de seus
cérebros, com a finalidade de avaliar a estrutura das regiões
relevantes para a linguagem e a leitura. Por fim, vários testes
específicos foram aplicados para avaliar as habilidades de
40 linguagem e de leitura dessas crianças.
(...)
O espanto com essa situação absurda me levou a investigar
o quadro atual, após a Covid-19. Preparem-se. A Unesco
disponibiliza em seu site um mapa interativo de atualização
45 diária sobre a quarentena que atingiu mais da metade da
população escolar em todo o mundo. Ou seja: a maior parte da
parcela que frequentava a escola no final de 2019 agora está
em casa. Número total de 3 de abril: 1 bilhão e 600 milhões
estudantes. Número de 22 de junho: 1 bilhão e 90 milhões
50 de estudantes parados. Atenção: números computados sobre os
alunos matriculados, representando quase 70% do total! A eles
se somam os 258 milhões sem escola, de antes da pandemia.
O fechamento das escolas em nível nacional foi adotado em
144 países. Em outros, as escolas fecharam apenas em algumas
55 unidades regionais. O mapa atualiza a situação do Brasil: em
22 de junho, quase 53 milhões de estudantes sem aulas.
Obviamente, estamos falando de médias, que geralmente
escondem situações ainda mais pavorosas, se considerarmos
os altos níveis de pobreza e desigualdade em muitos países. A
60 África subsaariana, por exemplo, respondia por um terço dos
números totais de crianças sem escola em todo o mundo em
2019, sendo a maioria composta de meninas. Outro terço
vinha da Ásia meridional. A América Latina tinha “melhor”
desempenho, comparada com essas regiões: 10% das crianças
65 do mundo fora da escola.
A desigualdade social que assola os países — quase todos
eles — pôde ser captada pelos dados da Unesco de 2019: 32%
de crianças e jovens fora da escola nos países de baixa renda, e
outros 30% nos países de renda média, contra apenas 3,5% nos
70 países desenvolvidos.
Um dos grandes desafios após a pandemia já não será mais
alcançar o Objetivo 4 da Agenda 2030. Será garantir a volta à
escola dos alunos mais pobres, aqueles cujas famílias
perderam emprego e renda com a crise econômica que chegou
75 com a Covid-19. Haverá a tendência, é natural, de que muitos
jovens precisem trabalhar para ajudar a família, e fiquem fora
da escola. Os números da Unesco de 2019 crescerão
dramaticamente em 2021. E o problema passa a ser conseguir
que retornem à escola.
80 Pobres crianças pobres.
(Roberto Lent – http://innt.org.br/neurociencia-e-educacao-sao-temas-de-artigosde-roberto-lent-publicados-)
Analise o fragmento de texto a seguir.
“Os números da Unesco de 2019 crescerão dramaticamente em 2021. E o problema passa a ser conseguir que retornem à escola.” (L. 77-79)
A utilização do acento grave (crase) no trecho destacado é recomendada porque
houve a fusão do artigo A – regência do verbo retornar – com o artigo feminino do substantivo “escola”.
houve a fusão da preposição A – regência do verbo retornar – com o complemento nominal “à escola”.
houve a predominância do artigo A nas duas estruturas.
houve a predominância da preposição A – pedida pelo verbo e pelo substantivo “escola”.
houve a fusão da preposição A – regência do verbo retornar – com o artigo feminino do substantivo “escola”.