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Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo.
Todo dia é dia de falar sobre George Orwell
01 Eu penso em George Orwell de manhã, quando toca o despertador do celular e olho no
02 fundo da câmera, por trás da qual bem poderia estar um Grande Irmão. Penso em George Orwell
03 ao longo do dia, quando abro o noticiário e vejo a situação política global se tensionar, como se
04 os países se fechassem em punhos, prontos a se esmurrar. Penso em George Orwell de noite,
05 quando procuro na estante o que ler nos próximos dias.
06 Voltei a pensar em George Orwell com uma notícia recente: a versão em quadrinhos de sua
07 Revolução dos bichos, feita pelo artista Odyr, ganhou o HQMix de Melhor Adaptação para
08 Quadrinhos. Ainda não tive a chance de conferir o trabalho, mas qualquer iniciativa que nos faça
09 falar de George Orwell é válida — trata-se de um dos escritores mais urgentes do momento, para
10 todo o espectro político e todas as latitudes.
11 Antes de tudo, devido a sua obra. Não apenas Revolução dos bichos e 1984, tão clássicos
12 que já correm o risco de ossificação, pisados e repisados a cada sinal de fechamento e escalada
13 autoritária mundo afora; também os ensaios de Orwell merecem leitura.
14 Quem já estiver um pouco cansado de política, da face institucional dela, também
15 encontra boas opções, que nutrem o pensamento e revigoram o espírito, em livros como Na pior
16 em Paris e Londres e Como morrem os pobres e outros ensaios. O primeiro traz um relato das
17 vivências de Orwell nas capitais francesa e inglesa, sem muito mais que uns poucos tostões e a
18 necessidade de não sucumbir ao frio, à fome, à fadiga. Embora na superfície pareça tão diferente
19 da ficção especulativa de 1984 ou da sátira política de Revolução dos bichos, o livro tem tudo a
20 ver com a obra orwelliana, já que é seu ponto de partida, seu Big Bang: nele o autor elaborou
21 seu olhar crítico, meio ___ margem, e sua vontade de concretude, seja na linguagem, seja nas
22 situações retratadas. Encontrou sua voz e seu ponto de vista.
23 Mais diversa e por vezes ainda mais direta, a coletânea de ensaios Como morrem os
24 pobres mostra Orwell em grande forma, com textos potentes e de uma atualidade
25 impressionante. Desde uma frase pontual (“Em nosso tempo, o discurso e a escrita política são,
26 em grande medida, a defesa do indefensável”, como se lê em “A política e a língua inglesa”) até
27 raciocínios mais gerais, o livro corre o risco de acabar todo rabiscado, páginas e páginas
28 sublinhadas, anotadas e comentadas, como se o movimento incessante do lápis pudesse reverter
29 as letras em voz, em busca de alguma luz, de alguma clareza para entender o mundo de Orwell,
30 que ainda é o nosso em muitos aspectos decisivos.
31 Nem tudo é perfeito em Orwell, obviamente. Há comentários e pontos de vista que podem
32 nos parecer problemáticos, ainda mais se não considerarmos o contexto. Em Como morrem os
33 pobres, por exemplo, seu ensaio em defesa das lareiras a carvão soa questionável se o lermos de
34 modo anacrônico, com as preocupações ecológicas de hoje, quando combustíveis fósseis se
35 tornaram um fator evidente do colapso climático. Há outro aspecto problemático no ensaio:
36 Orwell faz uma defesa tradicionalista, de um idílio familiar, com pai, mãe e crianças em torno da
37 lareira, que parece meio piegas, ou acrítica, ___ beira de um saudosismo potencialmente nocivo.
38 É por isso e por outras razões que penso em Orwell várias vezes ao dia, em geral, na
39 forma de uma interrogação. Não me pergunto o que ele faria ou o que diria; seus textos estão aí,
40 basta relê-los e ficar atento ___ coerência para extrair conclusões. Penso em Orwell, mas penso em
41 especial em suas circunstâncias: que escritor ele teria sido em outra época? Se tivesse vivido
42 tempos menos turbulentos, menos cindidos, menos incendiários, ele teria escrito de outra forma?
43 Penso em Orwell e percebo que sua figura embaralha essas perguntas e as deixa de lado,
44 abrindo espaço para a que realmente interessa: como viver e agir ___ altura dos desafios do
45 tempo em que nascemos? Com que princípios, com que ferramentas?
46 A obra de Orwell é testemunha de sua resposta, com seu alcance e suas limitações; cada
47 um de nós que responda por si.
(Henrique Balbi – Revista Época – 11/09/2019 – Disponível em: https://epoca.globo.com/ - disponível)
Assinale a alternativa que apresenta um antônimo direto do vocábulo “anacrônico” (l. 34):
Antigo.
Cronológico.
Anterior.
Organizado.
Atemporal.