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A exemplo de mulheres-bomba (linha 31), em que a flexão...

Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando

pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta

uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na

5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse

grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com

seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à

qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.

Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão

radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a

natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,

quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,

depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.

15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua

morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar

uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por

outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às

20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos

mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o

manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado

originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente

25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma

parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a

primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,

regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos

contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé

cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado

pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que

vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência

35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da

colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas

abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por

40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata

cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles

invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.

E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –

45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão

e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode

incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De

boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí

50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também

existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas

chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia

julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela

misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência

ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de

exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na

vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos

permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade

60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém

é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos

que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma

competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que

65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas

relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue

fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da

vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser

70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao

meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,

com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.

Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando

nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a

profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos

alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais

nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde

usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações

80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,

nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro

para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo

e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade

humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro

promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.

Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar

que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de

90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um

todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é

esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

A exemplo de mulheres-bomba (linha 31), em que a flexão para o plural se deu corretamente, assinale a alternativa em que também se tenha correção gramatical na composição do plural.


A

acordos francos-hispânicos


B

vestidos verdes-claros


C

camisas amarela-claras


D

fitas azul-piscina


E

operários-padrões