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– Pois eu não: para o plural, é lógico. (linha 42) A...

Texto II, para as questões 36 a 49.

Eloquência Singular

Mal iniciara seu discurso, o deputado embatucou:

– Senhor Presidente: eu não sou daqueles que...

O verbo ia para o singular ou para o plural? Tudo indicava o plural. No entanto, podia perfeitamente ser o singular:

– Não sou daqueles que...

5 Não sou daqueles que recusam... No plural soava melhor. Mas era preciso precaver-se contra essas armadilhas da linguagem

– que recusa? – ele que tão facilmente caía nelas, e era logo massacrado com um aparte. Não sou daqueles que... Resolveu ganhar

tempo:

–...embora perfeitamente cônscio das minhas altas responsabilidades como representante do povo nesta Casa, não sou...

Daqueles que recusa, evidentemente. Como é que podia ter pensado em plural? Era um desses casos que os gramáticos

10 registram nas suas questiúnculas de português: ia para o singular, não tinha dúvida. Idiotismo de linguagem, devia ser.

–...daqueles que, em momentos de extrema gravidade, como este que o Brasil atravessa...

Safara-se porque nem se lembrava do verbo que pretendia usar:

– Não sou daqueles que...

Daqueles que o quê? Qualquer coisa, contanto que atravessasse de uma vez essa traiçoeira pinguela gramatical em que sua

15 oratória lamentavelmente se havia metido de saída. Mas a concordância? Qualquer verbo servia, desde que conjugado corretamente,

no singular. Ou no plural:

– Não sou daqueles que, dizia eu – e é bom que se repita sempre, senhor Presidente, para que possamos ser dignos da

confiança em nós depositada...

Intercalava orações e mais orações, voltando sempre ao ponto de partida, incapaz de se definir por esta ou aquela

20 concordância. Ambas com aparência castiça. Ambas legítimas. Ambas gramaticalmente lídimas, segundo o vernáculo.

– Neste momento tão grave para os destinos da nossa nacionalidade.

Ambas legítimas? Não, não podia ser. Sabia bem que a expressão "daqueles que" era coisa já estudada e decidida por tudo

quanto é gramaticoide por aí, qualquer um sabia que levava sempre o verbo ao plural:

–...não sou daqueles que, conforme afirmava...

25 Ou ao singular? Há exceções, e aquela bem podia ser uma delas. Daqueles que. Não sou UM daqueles que. Um que recusa,

daqueles que recusam. Ah! o verbo era recusar:

– Senhor Presidente. Meus nobres colegas.

A concordância que fosse para o diabo. Intercalou mais uma oração e foi em frente com bravura, disposto a tudo, afirmando

não ser daqueles que...

30 – Como?

Acolheu a interrupção com um suspiro de alívio:

– Não ouvi bem o aparte do nobre deputado.

Silêncio. Ninguém dera aparte nenhum.

– Vossa Excelência, por obséquio, queira falar mais alto, que não ouvi bem – e apontava, agoniado, um dos deputados mais

35 próximos.

– Eu? Mas eu não disse nada...

– Terei o maior prazer em responder ao aparte do nobre colega. Qualquer aparte.

O silêncio continuava. Interessados, os demais deputados se agrupavam em torno do orador, aguardando o desfecho daquela

agonia, que agora já era, como no verso de Bilac, a agonia do herói e a agonia da tarde.

40 – Que é que você acha? – cochichou um.

– Acho que vai para o singular.

– Pois eu não: para o plural, é lógico.

O orador seguia na sua luta:

– Como afirmava no começo de meu discurso, senhor Presidente...

45 Tirou o lenço do bolso e enxugou o suor da testa. Vontade de aproveitar-se do gesto e pedir ajuda ao próprio Presidente da

mesa: por favor, apura aí pra mim, como é que é, me tira desta...

– Quero comunicar ao nobre orador que o seu tempo se acha esgotado.

– Apenas algumas palavras, senhor Presidente, para terminar o meu discurso: e antes de terminar, quero deixar bem claro que,

a esta altura de minha existência, depois de mais de vinte anos de vida pública...

50 E entrava por novos desvios:

– Muito embora... sabendo perfeitamente... os imperativos de minha consciência cívica... senhor Presidente... e o declaro

peremptoriamente... não sou daqueles que...

O Presidente voltou a adverti-lo que seu tempo se esgotara. Não havia mais por que fugir:

– Senhor Presidente, meus nobres colegas!

55 Resolveu arrematar de qualquer maneira. Encheu o peito e desfechou:

– Em suma: não sou daqueles. Tenho dito.

Houve um suspiro de alívio em todo o plenário, as palmas romperam. Muito bem! Muito bem! O orador foi vivamente

cumprimentado.

(Fernando Sabino)

– Pois eu não: para o plural, é lógico. (linha 42)

A respeito do período acima, é correto afirmar que



A

é composto por duas orações.


B

é composto por três orações coordenadas.


C

é classificado como período único, por ser oração absoluta.


D

contém conjunção coordenativa explicativa.


E

apresenta uma oração subordinada adverbial.