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TEXTO lI : A BRIGA NA PROCISSÃO
1 Quando Palmeira das Antas
Pertencia ao capitão
Justino Bento da Cruz
Nunca faltou diversão.
5 Vaquejada, cantoria,
Procissão e romaria
Sexta-feira da Paixão.
Na Quinta-feira Maior
Dona Maria das Dores
10 No salão paroquial
Reunia os moradores
Depois duma Preleção
Ao lado do capitão
Escalava a seleção
15 De atrizes e atores.
O Papel de cada um
O Capitão escolhia,
A roupa e a maquiagem
Eram com dona Maria ·
20 O resto era discutido
Aprovado e resolvido
Na sala da sacristia.
Todo ano era um Jesus
Um Caifás e um Pilatos,
25 Só não mudavam a cruz
O verdugo e os maltratos.
O Cristo daquele ano
Foi o Quincas Beija-flor,
Caifás foi o Cipriano
30 Pilatos foi Nicanor.
Duas cordas paralelas
Separavam a multidão
Pra que pudesse entre elas
Caminhar a procissão.
35 Cristo conduzindo a cruz
Foi não foi advertia
O centurião perverso
Que com força lhe batia
Era pra bater maneiro
40 Mas ele não entendia.
Devido um grande pitão
Que bebeu naquele dia
Do vinho que o capelão
Guardava na sacristia.
45 Cristo dizia: "Oh! Rapaz ...
Vê se bate divagar
Já tô todo encalombado
Assim não vou aguentar,
Tá cá gota pá doer
50 Ou tu para de bater
Ou a gente vai brigar.
Jogo já essa cruz fora
Tô ficando revoltado
Vou morrer antes da hora
55 De ficar cruxificado."
O pior é que o malvado
Fingia que não ouvia
Além de bater com força
Ainda se divertia
60 Espiava pra Jesus
Fazia pouco e dizia:
"Qui Cristo frouxo é você
Qui chora na procissão?
Jesus, pelo qui se sabe
65 Num era mole assim não.
Eu to batendo com pena,
Tu vai vê o qui é bom
Na subida da ladeira
Da venda de Finelon
70 O couro vai ser dobrado,
Até chegar no mercado
A cuíca muda o tom."
Naquele momento ouviu-se
Um grito na multidão,
75 Era Quincas que com raiva
Sacudiu a cruz no chão
E partiu feito um maluco
Pra cima de Bastião.
Se travaram no tabefe
80 Ponta-pé e cabeçada
Madalena levou queda,
Pilatos levou pancada,
Deram um bofete em Caifás
Que até hoje não faz ·
85 Nem sente gosto de nada.
Desmancharam a procissão,
O cacete foi pesado
São Tomé levou um tranco
Que ficou desacordado
90 Acertaram um cocorote
Na careca de Timote
Que até hoje é aluado.
Até mesmo São José
Que não é de confusão
95 Na ânsia de defender
Seu filho de criação
Aproveitou a garapa
Pra dar um monte de tapa
Na cara do bom ladrão.
100 A briga só terminou
Quando o doutor delegado
Interveio e separou
Cada santo pró seu lado
Desde que o mundo se fez
105 foi esta a primeira vez
Que Cristo foi pró xadrez
Mas não foi crucificado.
(Disponível em: h11p:/l11Mw.gntontomiranda.çom.brlpoesia brasislpgr-giba/chico pedrosq.htm -Acesso em: 25109120/ 7)
A poesia de Chico Pedrosa é rica e pura ao mesmo tempo; se, por um lado, guarda relatos preciosos da historiografia universal e bíblica, alinha a isso, por outro lado, um linguajar natural, revelador das nuances sertanejas e livre das lapidações da gramática tradicional.
A posição dos pronomes oblíquos átonos, nas frases de textos brasileiros, tem se adaptado mais à graciosidade de nosso linguajar e aos níveis de linguagem, tornando a leitura mais fluida e mais natural. Nas duas estrofes abaixo destacadas, Chico Pedrosa recorreu, respectivamente, às seguintes posições dos pronomes oblíquos átono:
Naquele momento ouviu-se
Um grito na multidão,
Era Quincas que com raiva
Sacudiu a cruz no chão
E partiu feito um maluco
Pra cima de Bastião.
Se travaram no tabefe
Ponta-pé e cabeçada
Madalena levou queda,
Pilatos levou pancada,
Deram um bofete em Caifás
Que até hoje não faz ·
Nem sente gosto de nada.
próclise e ênclise
ênclise e próclise
mesóclise e ênclise
próclise e próclise
próclise e mesóclise