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Leia o poema Adiar, de Fernando Pessoa, para responder às questões 07 e 08.
ADIAR.
1. Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
2. Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
3. E assim será possível; mas hoje não...
4. Não, hoje nada; hoje não posso.
5. A persistência confusa da minha subjectividade
objectiva,
6. O sono da minha vida real, intercalado,
7. O cansaço antecipado e infinito,
8. Um cansaço de mundos para apanhar um
eléctrico...
9. Esta espécie de alma...
10. Só depois de amanhã...
11. Hoje quero preparar-me,
12. Quero preparar-me para pensar amanhã no dia
seguinte...
13. Ele é que é decisivo.
14. Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não
traço planos...
15. Amanhã é o dia dos planos.
16. Amanhã sentar-me-eí à secretária para
conquistar o mundo;
17. Mas só conquistarei o mundo depois de
amanhã...
18. Tenho vontade de chorar,
19. Tenho vontade de chorar muito de repente, de
dentro...
20. Não, não queiram saber mais nada, é segredo,
não digo.
21. Só depois de amanhã...
22. Quando era criança o circo de domingo divertia-
me toda a semana.
23. Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a
semana da minha infância...
24. Depois de amanhã serei outro,
25. A minha vida triunfar-se-á,
26. Todas as minhas qualidades reais de inteligente,
lido e prático
27. Serão convocadas por um edital...
28. Mas por um edital de amanhã...
29. Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
30. Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria
a infância?
31. Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
32. Que depois de amanhã é que está bem o
espectáculo...
33. Antes, não...
34. Depois de amanhã terei a pose pública que
amanhã estudarei.
35. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje
não posso nunca ser.
36. Só depois de amanhã...
37. Tenho sono como o frio de um cão vadio.
38. Tenho muito sono.
39. Amanhã te direi as palavras, ou depois de
amanhã...
40. Sim, talvez só depois de amanhã...
41. O porvir...
42. Sim, o porvir...
(PESSOA, F. ABC de Fernando Pessoa. São Paulo: Leya, 2016, p. 8-9).
Considerando a colocação dos pronomes oblíquos átonos, segundo a norma culta da Língua Portuguesa, assinale a alternativa incorreta.
No verso, “Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...” (v. 12), a colocação pronominal está de acordo com a norma culta, segundo a qual, em estruturas verbais como essa, o pronome pode ser usado depois do verbo principal, desde que não seja um particípio.
No verso, “Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda semana” (v. 22), a ênclise é adequada, porque, nesses casos em que o verbo não inicia a oração, pode-se usar, indiferentemente, próclise ou ênclise.
No verso, “Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo” (v. 16), a mesóclise é inadequada, uma vez que, havendo palavra atrativa, um advérbio, no caso, a próclise deve prevalecer sobre a mesóclise.
No verso, “A minha vida triunfar-se-á” (v. 25), a mesóclise é inadequada, porque o verbo no futuro do presente não está iniciando a oração.
No verso, “Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?” (v. 30), a próclise é obrigatória em razão de um fator de próclise, um pronome relativo, no caso, exercendo influência sobre o pronome oblíquo, fazendo com que ele se posicione obrigatoriamente antes do verbo.