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Texto I
NUVENS DORIDAS
(fragmento)
Na escola, as paredes próximas à entrada dos alunos sempre traziam os apelidos dos jovens
do bairro. Eu não os conhecia pelo rosto, tampouco pela voz, mas sim pelos seus codinomes sociais. A
inspetora de alunos, que também fazia os bolos de aniversário de todos os vizinhos mais ricos do que
eu, não gostava dessas paredes escritas. Sempre falava mal da grafia dos jovens e de nós, que não
5 podíamos comprar seus bolos. Sempre que via algum novo apelido escrito, ia logo contando pra
diretora, apontando seu indicador torto e arbitrário para qualquer um que aparecesse à sua frente:
─ Foi esse daí, ó! Tenho certeza!
[...]
Minha mãe era conhecida nas ruas e números e casas sobrepostas como dona Lourdes da
10 limpeza, embora seu nome de registro seja Lourdes Ferreira.
[...]
Dona Lourdes da limpeza conseguiu mais um emprego. Aos sábados cuidava de uma senhora
que, segundo ela, só conseguia abrir os olhos. Por conta disso, a organização da nossa casa passou a
ser feita por mim. Cuidava de tudo como ela pedia e gostava. Lustrava cada canto só para ver um sorriso
15 ao seu rosto. Sozinha, ela pouco ia até a casa da minha avó. Cansada, já não esquentava a mortadela
aos sábados. Meu irmão mais velho parou de ir aos bancos. Explicou à minha mãe que muitas empresas
procuravam por profissionais para fazer entrega rápida, assim ele conseguiria ganhar muito dinheiro em
pouco tempo. Após essa conversa, ele passou a andar de moto platinada, usando casacos pretos e
sempre com um relógio grande e reluzente no punho direito.
20 [...]
Meu irmão do meio aprumou sua alheada memória, passou a tirar notas boas e falava pra todo
mundo que seria piloto de avião. De tal sorte que só queria usar camisa social engomada. No bairro o
confundiam com pastor, mas ele pouco se incomodava, sabia que um dia habitaria o céu, mas de outra
forma e por outro motivo.
25 Já estávamos para finalizar o estudo formal. Eu ainda trabalhava com o senhor Katita, embora
nos últimos meses com medo e pesar. E meu irmão do meio havia pedido um dinheiro emprestado ao
meu irmão mais velho para conseguir fazer o tão sonhado curso de aviador.
Na última semana de aula a inspetora de alunos, acompanhada por dois policiais, se aproximou:
─ É esse daí, ó! Tenho certeza!
30 Com a face retorcida pelo chão e um gemido de incompreensão e dor, meu irmão do meio foi
levado para um camburão. Não consegui entender nada. Não consegui pensar em nada. Dias depois,
ainda carregando o hematoma da agressão sofrida, dei-me conta do ocorrido.
Foram semanas intensas... advogados, visitas, e vários nomes estranhos ao nosso
entendimento.
35 Meu irmão mais velho chegou com outros jovens como ele. Aos gritos, minha mãe implorou que
ele não fizesse nenhuma loucura. Gabriela e Canela não latiram como sempre faziam diante de gritos
e confusões. No canto do portão ficaram, e viram, como eu, a saída do meu irmão com uma arma
chamada vingança nas mãos, no peito e na mente. Eu nunca mais vi meu irmão e seus biscoitos. No
dia da sepulcral despedida, ele, preto assim como eu, trazia um semblante hirto e acinzentado. Chegou
40 ao céu antes do nosso irmão do meio, de outra forma, por outro motivo.
LIMA, Beatriz. In: RIBEIRO, Esmeralda; BARBOSA, Márcio. Cadernos Negros, v. 40: contos. São Paulo: Quilombhoje, 2017, p. 81-88.
No primeiro parágrafo, ocorre a descrição na apresentação do enredo, predominando formas verbais como “traziam” (linha 1), “conhecia” (linha 2) e “fazia” (linha 3), flexões do
presente do indicativo.
pretérito perfeito do indicativo.
pretérito imperfeito do indicativo.
futuro do pretérito do indicativo.