Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo.
Quando a cegueira é voluntária
- Olhando bem direitinho para trás, cada um de nós vai conseguir se lembrar de algumas
- situações da vida em que, por falta de opção, maturidade, preparo, habilidade ou conhecimento,
- fez a escolha – sim! Tudo é uma escolha – de não ver o que estava literalmente na frente do
- nariz. Proponho aqui uma experiência: peça para alguém aí do seu lado que pegue um objeto
- qualquer, de preferência com tamanho de ao menos uns 50 centímetros; feche os olhos e peça a
- essa gentil pessoa que coloque o tal objeto bem grudado no seu nariz; abra os olhos e descreva
- o que você vê. Viu que quando algo está perto demais a gente fica impossibilitado de ver o
- todo?
- Eu fiz aqui a experiência: com um livro colado às minhas narinas, pude dizer que era um
- livro e que era antigo; soube que era um livro porque reconheço o cheiro dos livros até de olhos
- vendados e soube que era velho porque tinha cheiro de livro velho. Mas fui incapaz de responder
- a perguntas que só seriam possíveis de responder se eu tomasse alguma distância e, de
- preferência, pudesse manuseá-lo. Que livro? Sobre o quê? Por que foi escrito? Por quem foi
- escrito? Quem ilustrou? Quantas páginas tem? Quantas edições? Ver, olhar e enxergar requer de
- nós algum distanciamento. Requer de nós alguma imparcialidade, muita sabedoria, uns bons
- anos de experiência, disponibilidade para desencaixotar o olhar e abrir a mente. Sem esses pré-
- requisitos a visão fica distorcida, rasa e prejudicada.
- A vida é uma sucessão infinita de coisas coladas aos nossos narizes. Na ânsia de possuir,
- experimentar e sentirmo-nos incluídos, aproximamo-nos demais daquilo que desejamos, das
- experiências que queremos viver, dos ideais que abraçamos, das crenças que optamos por
- acolher em nossas almas. Quantas vezes vemos algum amigo, ou amiga, embarcar numa canoa
- furada, seja essa canoa um relacionamento, um emprego ou a simples compra de um objeto de
- desejo. Estou citando a questão do amigo, ou amiga, porque é muito mais fácil para qualquer
- um de nós enxergar uma roubada quando ela é alheia, confere? Confere. E a razão é simples: a
- roubada é do outro, portanto, não está grudada nos nossos narizinhos.
- Bem, supondo que o amigo, ou amiga, começou um namoro. Então, ao sermos
- apresentados ao parceiro ou parceira, somos surprendidos pelo erro inequívoco da escolha. E
- não estou falando da aparência, até porque a aparência realmente é o de menos! Estou aqui a
- falar acerca da envergadura moral e ideológica do par amoroso. Quanto mais a pessoa fala, ou
- não fala, a gente vai ficando cada vez mais chocado e preocupado. No final, diante dos olhos
- imbevecidos do nosso amigo, ou amiga, acometidos pela cegueira da síndrome do
- relacionamento novo, mais conhecida como paixonite, despedimo-nos e vamos para nossas
- casas com uma pulga de dimensões continentais atrás da orelha. Será que fulano parou a
- terapia? Será que foi abduzido? Será que anda tomando algum chá alucinógeno? Será que eu
- não conhecia meu amigo, ou amiga de fato? Será que sou eu o errado? E o pior: o que faço
- agora? Falo? Calo-me?
- É, companheiros e companheiras, conviver é mesmo coisa complicada! Quando estamos
- diante da cegueira voluntária alheia, é fácil ver o equívoco, o que não torna em nada o passo
- seguinte mais fácil, posto que se trata da vida alheia. E vida alheia é território sagrado, é lugar
- em que se pisa com amor e cuidado. Em geral, o correto e mais terapêutico é ajudar o(a)
- coleguinha a refletir por conta própria, dando uns pitaquinhos de leve. Entretanto, se depois
- desses “toques” a criaturinha apenas sorrir com o olhar distante ou argumentar a favor de sua
- nova companhia e depois disso passar a evitar a sua… Bom, aí não há o que fazer! Sinto muito!
- É esperar o tempo se encarregar de esclarecer as duras realidades da vida, respeitar o espaço
- alheio e torcer para ser você o maluco. E, caso dê errado, estar por perto para ouvir, acolher,
- dar colo e não julgar. E o mais importante: nunca dizer “só você que não viu!” ou “eu tentei
- avisar!”.
(Disponível em: https://www.contioutra.com/quando-a-cegueira-e-voluntaria/ – Texto adaptado especialmente para esta prova.)