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Instrução: As questões de números 01 a 08 referem-se ao texto abaixo.
A culpa por não fazer mais
Por Ana Carolina Pinheiro
01 Mais do que o cansaço de sair de casa de manhã para receber e distribuir doações para os
02 moradores do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, todos os dias, o peso que a
03 pedagoga Priscila Emanuelle, 32 anos, mais sente é o da culpa. “Estava falando disso ontem com
04 a minha amiga Camila. Disse a ela que me sinto a pior mãe do mundo, mas ela prontamente me
05 corrigiu”, contou por telefone.
06 Antes da pandemia, a professora já fazia trabalho voluntário na comunidade por fazer
07 parte do projeto social Mulheres em Ação, que auxilia mulheres e seus familiares. Mas, com a
08 criação do gabinete de crise por conta do novo coronavírus, a demanda aumentou. “Meu
09 contrato foi suspenso, já que a creche não recebe mais as crianças. Por isso, passo ainda mais
10 tempo auxiliando os moradores que não tem o que comer e nem pagar suas contas. Não posso
11 ver isso e ficar parada olhando”, explica.
12 Mesmo assim, a sensação de que está deixando a desejar ainda bate ___ porta. “Quando
13 deixo minha filha em casa, a culpa vem. Só que ao ficar em casa, sinto que estou deixando de
14 ajudar. Afinal, são mulheres que precisam sustentar suas famílias”, revela Priscila, que passou o
15 Dia das Mães em casa com a mãe e a filha, mas atendeu moradores na varanda.
16 Assim como um jogo, a sociedade também é regida por um conjunto de regras de
17 valores, normas e ideias do que é definido, com forte interferência religiosa, de certo e errado,
18 que conhecemos como moral. Ao não atingir a expectativa desse ideário, a culpa pode aparecer.
19 “Esse sentimento, em certa medida, é um recurso civilizatório, pois é uma maneira de, já na
20 infância, os pais acabarem o internalizando nos filhos ao imporem limites. Daí o fato de a culpa
21 estar ligada ___ ideia de consciência moral”, diz Célia Ferreira Carta Winter, doutora em
22 Psicologia Clínica e professora de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná
23 (PUCPR).
24 Segundo a doutora Célia, a culpa é algo subjetivo e não está ligado a um ato em si, mas
25 assim como Priscila, agir dentro das suas possiblidades é o recomendado. “Dentro desse
26 sentimento, há uma responsabilidade que nos auxilia na avaliação real do que é possível e do
27 que é impossível. Então, quando você (e sua autoridade interna) avalia ter feito algo que não
28 gostaria, que não está de acordo com o que gostaria, responsabilizar-se e ir atrás é não recuar
29 do desejo e se implicar efetivamente com o possível, no sentido de fazer alguma coisa”,
30 considera a especialista.
31 Abrir uma garrafa de vinho, assistir a uma live, fazer um churrasco em casa na sua
32 própria companhia ou na de quem já mora com você. É possível ter momentos leves e de
33 felicidades, como esses, em meio a um cenário delicado e caótico sem se culpar? Para o
34 psicólogo e professor Celso Athayde Neto, a resposta é sim. “Diria que o autoconhecimento é
35 uma ferramenta de libertação. Conhecer o quanto se é vulnerável ___ culpa é, em certa medida,
36 conhecer a história que formou uma pessoa generalizadamente culpada. Entender e conhecer
37 essa história individual, coloca a pessoa em uma posição melhor de entender que felicidade pode
38 ocorrer sem culpa quando ela não vem de ações que causem sofrimento para o outro. Se faço
39 festas remotas e isso não prejudica ninguém, então, que sejamos felizes e brindemos
40 remotamente: ‘Tim-Tim’”, aconselha.
41 Aqui, falamos de um contexto em que ninguém prejudica diretamente alguém, mas que o
42 não fazer para melhorar as condições do outro gera um incômodo. Segundo Celso, não existem
43 tipos de culpas diferentes, mas sim intensidades e trajetórias pessoais diferentes. “A intensidade
44 será uma função da história de reprovação social por atos que, ao nos beneficiarem, produzem
45 danos aos outros. Tal história de vida também pode ditar os contextos em que uma pessoa vai
46 se sentir culpada”, finaliza o psicólogo.
(Disponível em: https://claudia.abril.com.br/sua-vida/ - texto adaptado especialmente para esta prova).
A palavra “remotamente” (l. 40) é um advérbio de modo. Assinale a alternativa que NÃO apresenta um advérbio que descreve a maneira como as ações são realizadas.
Jogou-se preguiçosamente no sofá.
Lia tranquilamente enquanto comia.
Sorriu furtivamente.
Caminhava apressadamente pela rua.
Vou frequentemente à academia, quatro vezes por semana.