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Texto 1
Ora pois, uma língua bem brasileira
Análise de textos antigos e de entrevistas expõe as marcas próprias do idioma no país, o alcance do R caipira e os lugares que preservam modos antigos de falar
Carlos Fioravanti38
01 A possibilidade de ser simples, dispensar elementos gramaticais teoricamente essenciais
02 e responder “sim, comprei” quando alguém pergunta “você comprou o carro?” é uma das
03 características que conferem flexibilidade e identidade ao português brasileiro. A análise de
04 documentos antigos e de entrevistas de campo ao longo dos últimos trinta anos está
05 mostrando que o português brasileiro já pode ser considerado único, diferente do português
06 europeu, do mesmo modo que o inglês americano é distinto do inglês britânico. O português
07 brasileiro ainda não é, porém, uma língua autônoma: talvez seja – na previsão de
08 especialistas, em cerca de duzentos anos – quando acumular peculiaridades que nos
09 impeçam de entender inteiramente o que um nativo de Portugal diz.
10 A expansão do português no Brasil, as variações regionais com suas possíveis
11 explicações, que fazem o “urubu” de São Paulo ser chamado de “corvo” no Sul do país, e as
12 raízes das inovações da linguagem estão emergindo por meio do trabalho de cerca de
13 duzentos linguistas. De acordo com estudos da Universidade de São Paulo (USP), uma
14 inovação do português brasileiro, por enquanto sem equivalente em Portugal, é o R caipira, às
15 vezes tão intenso que parece valer por dois ou três, como em porrrta ou carrrne.
16 Associar o R caipira apenas ao interior paulista, porém, é uma imprecisão geográfica e
17 histórica, embora o R desavergonhado tenha sido uma das marcas do estilo matuto do ator
18 Amácio Mazzaropi em seus 32 filmes, produzidos de 1952 a 1980. Seguindo as rotas dos
19 bandeirantes paulistas em busca de ouro, os linguistas encontraram o R supostamente típico
20 de São Paulo em cidades de Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e oeste
21 de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, formando um modo de falar similar ao português
22 do século XVIII. Quem tiver paciência e ouvido apurado poderá encontrar também na região
23 central do Brasil – e em cidades do litoral – o S chiado, uma característica hoje típica do falar
24 carioca, que veio com os portugueses em 1808 e era um sinal de prestígio por representar o
25 falar da Corte. Mesmo os portugueses não eram originais: os especialistas argumentam que o
26 S chiado, que faz da esquina uma shquina, veio dos nobres franceses, que os portugueses
27 admiravam.
28 A história da língua portuguesa no Brasil está trazendo à tona as características
29 preservadas do português, como a troca do L pelo R, resultando em pranta em vez de planta.
30 Camões registrou essa troca em Os lusíadas – lá está um frautas no lugar de flautas – e o
31 cantor e compositor paulista Adoniran Barbosa a deixou registrada em diversas composições,
32 em frases como “frechada do teu olhar”, do samba Tiro ao Álvaro. Em levantamentos de
33 campo, pesquisadores da USP observaram que moradores do interior tanto do Brasil quanto
34 de Portugal, principalmente os menos escolarizados, ainda falam desse modo. Outro sinal de
35 preservação da língua identificado por especialistas do Rio de Janeiro e de São Paulo, dessa
36 vez em documentos antigos, foi a gente ou as gentes como sinônimo de “nós” e hoje uma das
37 marcas próprias do português brasileiro.
38 Célia Lopes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), encontrou registros de a
39 gente em documentos do século XVI e, com mais frequência, a partir do século XIX. Era uma
40 forma de indicar a primeira pessoa do plural, no sentido de todo mundo com a inclusão
41 necessária do eu. Segundo ela, o emprego de a gente pode passar descompromisso e
42 indefinição: quem diz a gente em geral não deixa claro se pretende se comprometer com o
43 que está falando ou se se vê como parte do grupo, como em “a gente precisa fazer”. Já o
44 pronome nós, como em “nós precisamos fazer”, expressa responsabilidade e compromisso.
45 Nos últimos 30 anos, ela notou, a gente instalou-se nos espaços antes ocupados pelo nós e
46 se tornou um recurso bastante usado por todas as idades e classes sociais no país inteiro,
47 embora nos livros de gramática permaneça na marginalidade.
48 Outro sinal da evolução do português brasileiro são as construções híbridas, com um
49 verbo que não concorda mais com o pronome, do tipo tu não sabe?
50 de tratamento você e tu , e a mistura dos pronomes , como em “se você precisar, vou te ajudar”. Os portugueses europeus
51 poderiam alegar que se trata de mais uma prova de nossa capacidade de desfigurar a língua
52 lusitana, mas talvez não tenham tanta razão para se queixar. Célia Lopes encontrou a mistura
53 de pronomes de tratamento, que ela e outros linguista s não consideram mais um erro, em
54 cartas do marquês do Lavradio, que foi vice-rei do Brasil de 1769 a 1796 ,e, mais de dois
55 séculos depois, em uma entrevista do ex- Presidente Fernando Henrique Cardoso.
56 Linguistas de vários estados do país estão desenterrando as raízes do português
57 brasileiro ao examinar cartas pessoais e administrativas, testamentos, relatos de viagens,
58 processos judiciais, cartas de leitores e anúncios de jornais desde o século XVI, coletados em
59 instituições como a Biblioteca Nacional e o Arquivo Público do Estado de São Paulo. A equipe
60 de Célia Lopes tem encontrado também na feira de antiguidades do sábado da Praça XV de
61 Novembro, no centro do Rio, cartas antigas e outros tesouros linguísticos, nem sempre
62 valorizados. “Um estudante me trouxe cartas maravilhosas encontradas no lixo”, ela contou.
Disponível em: <http://revistapesquisa.fapesp.br/2015/04/08/orapoisumalinguabembrasileira/?cat=capa > . Acesso em: 21 jul. 2016. [Adaptado]
Considere os seguintes trechos, retirados do Texto 1.
“A expansão do português no Brasil, as variações regionais com suas possíveis explicações, que fazem o ‘urubu’ de São Paulo ser chamado de ‘corvo’ no Sul do país, e as raízes das inovações da linguagem estão emergindo por meio do trabalho de cerca de duzentos linguistas.” (linhas 10-13)
“Quem tiver paciência e ouvido apurado poderá encontrar também na região central do Brasil – e em cidades do litoral – o S chiado, uma característica hoje típica do falar carioca, que veio com os portugueses em 1808 e era um sinal de prestígio por representar o falar da Corte.” (linhas 22-25)
“Mesmo os portugueses não eram originais: os especialistas argumentam que o S chiado, que faz da esquina uma shquina, veio dos nobres franceses, que os portugueses admiravam.” (linhas 25-27)
Assinale a alternativa CORRETA.
Os pronomes em negrito retomam, respectivamente, os termos:
“variações regionais”, “falar carioca” e “nobres franceses”.
“variações regionais”, “S chiado” e “S chiado”.
“variações regionais”, “S chiado” e “nobres franceses”.
“a expansão do português no Brasil”, “S chiado” e “nobres franceses”.
“a expansão do português no Brasil”, “falar carioca” e “S chiado”.