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1 ____ Que me perdoem os devotos machadianos, eu prefiro
Euclides da Cunha e Lima Barreto, com todos os defeitos que
ambos possam ter, a Machado de Assis, com todas as suas
4 qualidades. E, até onde pude entender, Millôr Fernandes tem
opinião parecida com a minha. Tanto assim que, segundo
afirmou, não incluiria qualquer dos livros de Machado de Assis
7 entre os dez maiores romances brasileiros.
____ A meu ver, ao falar assim, Millôr Fernandes levou em
conta apenas livros como Dom Casmurro, em que, na minha
10 opinião, Machado incorre naquela miopia contra a qual o
músico Jayme Ovalle reclamava. Mas esqueceu de Quincas
Borba, que inclui Machado de Assis na linhagem cervantina da
13 literatura e em que a insânia de Rubião se aproxima da insânia
do Cavaleiro da Triste Figura.
____ Mas, talvez por causa da ironia sem compaixão de
16 Machado de Assis, a loucura de Rubião gira somente em torno
de sua pessoa, jamais partindo ele para qualquer ação no
sentido de corrigir “os desconcertos do mundo” — como
19 acontecia com o cavaleiro manchego. De modo que o
personagem mais generosamente quixotesco da literatura
brasileira não é Rubião, é Policarpo Quaresma. Lima Barreto
22 é nosso escritor mais puramente humorístico, tomada a palavra
em seu verdadeiro sentido, que inclui, ao lado do riso, a
compaixão, que a ironia de Machado de Assis ou impede ou mancha.
25 ____ Alguns escritores que desprezam o Brasil e seu povo
costumam usar Policarpo Quaresma como pretexto para
escarnecer de ambos. Pensam, talvez, que Lima Barreto era um
28 deles. Esquecem que, em seu romance, o grande escritor
carioca ri, antes de tudo, de si mesmo. E, sobretudo, não veem
tais escritores que, se a realidade brutal e mesquinha (inclusive
31 a da política) desmente e destrói, a cada instante, as ações
generosas de Policarpo Quaresma, a pureza de seu sonho
permanece intocada até a morte, o que o coloca muito acima
34 dos poderosos e “realistas” que o cercam.
Ariano Suassuna. In: Cadernos de literatura brasileira – Millôr Fernandes,
n.o 15, Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2003, p. 18-9 (com adaptações).
Acerca das ideias desenvolvidas no texto acima, julgue (C ou E) os itens subsequentes.
O autor do texto postula que o humor, na acepção por ele indicada, é qualidade distintiva de uma narrativa literária e incompatível com a ironia e o sarcasmo, recursos de uso frequente na literatura brasileira, especialmente entre os escritores com visão antinacionalista, referidos no texto como “escritores que desprezam o Brasil e seu povo” (L.25).
Certo
Errado