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A dádiva do esquecimento
Na mitologia grega, Mnemósine e Letes, os rios da memória e do esquecimento, corriam pelas planícies do Hades, a terra dos mortos, e a alma que lá chegava, conforme bebesse das águas de um ou de outro, teria o conhecimento ou a completa ignorância do que vivera sobre a terra. Outras versões do mito colocam o Letes à saída do Hades, pois a alma que retornava ao plano terreno tinha de apagar lembranças de vidas anteriores. No século XIV, Dante adaptou esses mitos da Antiguidade ao pensamento cristão em sua Divina Comédia: saindo do Purgatório, as almas que se encaminhavam para o Paraíso bebiam do Letes para esquecer os pecados, e de um rio chamado Eunoé para lembrar-se do bem que haviam feito.
Essas narrativas já contemplavam uma intuição fundamental sobre o funcionamento de nossa mente: esquecimento e memória são faculdades complementares. Precisamos de ambas.
A vida seria perfeitamente infernal se nossa memória fosse irretocável. Imagine lembrar-se exatamente de tudo o que foi dito pelo apresentador de um programa dominical que você viu em um dia de 1995, ou da cor das meias que você calçou naquela ocasião. Uma pessoa que se lembrasse de tais insignificâncias teria dificuldade para discernir que eventos merecem ser classificados de memoráveis. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Stanford e publicado em 2007 demonstrou que a capacidade do cérebro de suprimir lembranças irrelevantes facilita lembrar o que realmente importa. Há razões evolutivas para que seja assim: na competição pela sobrevivência em um ambiente hostil, torna-se fundamental guardar informações essenciais. Importa mais lembrar que certo cachorro é bravo do que recordar o nome dele ou a forma de sua tigela de ração.
A ciência ainda não desvendou os mecanismos do esquecimento, mas já sabe que esquecer é tão vital quanto lembrar. Pesquisas recentes sugerem que certas pessoas com incapacidade de esquecer eventos traumáticos têm maior risco de desenvolver depressão e transtorno de stress pós-traumático. Como apontou o filósofo e psicólogo americano William James, pioneiro em estudos sobre a memória: “Se nos lembrássemos de tudo, seríamos, na maioria das vezes, tão doentes quanto se não nos lembrássemos de nada”.
(Jerônimo Teixeira, Veja, 27.06.2018. Adaptado)
As palavras destacadas na passagem – ... na competição pela sobrevivência em um ambiente hostil, torna-se fundamental guardar informações essenciais. – têm antônimos adequados ao contexto, respectivamente, em
aliado e impertinentes.
desfavorável e primárias.
inepto e supérfluas.
adverso e indefinidas.
favorável e dispensáveis.