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No sintagma “os ‘irônicos estrangeiros’” (l. 21 e 22), o...

Texto III


1 ____Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foi

degolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cuja

porta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que

4 os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi que

saíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foram

esses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz

7 alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejos

por um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandeza

para todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está

10 o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história.

Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela adverte

todos nós, Brasileiros, de que “os irônicos estrangeiros” vivem

13 sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nosso

para, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”:

_______Fatal destino o dos brasílios Mestres!

16 ____Fatal destino o dos brasílios Vates!

______ Política nefanda, horrenda e negra,

______ pestilento Bulcão abafa e mata

19 ___ quanto, aos olhos de irônico estrangeiro,

_____ podia honrar o pátrio pensamento!

Ora, um dos argumentos que os “irônicos

22 estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós,

Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança,

uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime

25 e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adulto

dotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiro

é capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por

28 um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, são

pouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentes

ao primeiro exame, facílimos de desenredar.

31 ____Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia:

mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais!

Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um

34 “romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particular

não é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”.

Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante,

37 terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja num

velho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebre

assassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido:

40 “Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeça

acima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmancham

a impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística

43 criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito mais

comum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto de

cavalos”.

46 ____A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado,

julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero e

outros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na

49 mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista da

América Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muito

maiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e

52 aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças,

mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhores

e belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna,

55 O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fui

chamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujos

súditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de

58 cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro,

primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível,

cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes

61 que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minha

história, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desaparição

profética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e

64 bandeira do Reino Sertanejo.


Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José

Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).


Com referência ao texto III, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

No sintagma “os ‘irônicos estrangeiros’” (l. 21 e 22), o vocábulo ‘irônicos’ é o núcleo do sujeito, o que é confirmado pelo emprego de “irônico” em “desafio qualquer irônico” (l.58).


C

Certo


E

Errado