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Texto 1 A justiça em Sócrates1--Antes de tentar justificar...

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Texto 1


A justiça em Sócrates


1--Antes de tentar justificar ou explicar a justiça em Sócrates, ou o seu conceito, o que vem a ser a mesma coisa, devemos tentar definir o que é justiça.

2--No conceito clássico, ou seja, no sentido filosófico, justiça é um conceito que delimita, justifica e dá razão de ser às ações do ser humano no seu dia a dia perante seu semelhante. Dá ao ser humano a dimensão de compreender o que ele é perante o seu semelhante e como ele deve justificar as suas ações. Complicado? Nem tanto. Você é justo quando você entende. Entende o outro. Não você. O outro. Você pode ter as suas convicções, as suas certezas. Mas nada disso importa se você não leva em consideração o que o outro pensa. E não somente leva em consideração, mas se importa. Isso é justiça. A mais pura dela.

3--Sócrates tinha esse conceito de justiça. Ele procurava a verdade, sem preconceito. Sem medo. Ele pressupunha qualquer coisa. Mas respeitava a opinião formada. A dos outros. Ele sabia que a justiça estabelecida, aquela que estava escrita e que regia os seus semelhantes, devia ser respeitada e ouvida. Não importava aqui se estava a favor ou não. E aqui está a grande contribuição ao conceito de justiça de Sócrates.

4--Ele talvez pensasse diferente do que os outros pensavam. Tinha opinião diferente e queria discutir essa diferença. Mas jamais iria desrespeitar o conceito de justiça estabelecido. Quando o acusaram de ser um perverso e de ser diferente, ele no fundo se rejubilou. Diziam que ele tinha rompido a lei. Ele era uma pessoa justa, mas não via justiça, no sentido pior do termo, nessas acusações. E o que Sócrates fez?

5--Entendeu que a justiça, o seu conceito pessoal, não era o da sociedade. E respeitou esse sentimento. E se recusou a fugir e assim morreu.

6--Na minha visão, há uma moral funda nisso. Todos nós temos conceitos particulares de justiça. Achamos o que é justo, o que é certo, assim como achamos o que é bonito, o que é bom, o que devemos comprar. Somos sujeitos a uma série de decisões e pragmatismos sobre diferentes valores.

7--Temos de tomar decisões sobre vários assuntos e percepções durante o nosso dia a dia. E, às vezes, as decisões que tomamos nos frustram, porque são diferentes do que pensamos ou do que sentimos, porque somos obrigados a seguir a moda, o costume. Às vezes, não temos a coragem necessária de estabelecermos um conceito próprio e viver por ele. Mas com coragem ou sem, temos que entender algo fundamental, que Sócrates nos ensinou. Somos regidos por uma lei maior, que é a lei da civilidade, da harmonia, do convívio. Temos de aceitar o que está estabelecido, se queremos viver em sociedade. Este entendimento do conceito maior em detrimento do conceito particular se chama civilidade. Se chama filosofia. Se chama ser humano. No maior conceito possível. Esse era, ao meu ver, o conceito de justiça de Sócrates.

8--Eu posso achar que isso é certo ou não. O mais importante é entender, perceber, que há uma razão maior que nos faz sermos seres civilizados e humanos. Somos a única espécie que tem essa habilidade de poder entender, de se perguntar e de racionalizar. De estabelecer um valor que nos situa, que nos faz sermos o que somos. E entender isso, esse conceito maior de justiça, que pode ser diferente do nosso, não é ser acomodado. É um começo de uma discussão. De uma dialética, de um questionamento e aperfeiçoamento, de um melhor entendimento sobre o que podemos e o que somos.

9--E sem tomar cicuta.

10--As perguntas fundamentais da filosofia sobre quem somos, para onde vamos, de onde viemos moldam os nossos valores, porque certamente respondemos a essas perguntas, às vezes, de maneira não consciente, mas respondemos, através do que falamos, das diferentes formas de expressão que usamos e principalmente através de nossos atos perante a realidade da vida.

11--Sócrates entendeu isso. Quando ele dizia que a única coisa que sabia era o que nada sabia, ele nos mandou uma extraordinária mensagem. Ele se matou por um ideal e porque sabia que havia uma vida do outro lado. Queria que o julgamento dos seus atos fosse feito pela divindade. O seu discurso final é claro nesse sentido, quando ele diz que a ele é destinado morrer e aos outros viver. Qual dos dois é o melhor destino? Só os deuses sabem. Essa certeza em um valor, na justiça, e em um ideal, uma vida além da morte, entra em contradição com a sua negativa de nada saber.

12--Sócrates entendeu que o que nos move, o que nos faz viver é a certeza do nosso coração. Ele a chama de Deimonion, o domínio do divino. Sem razão, sem justificativa. Só por ele existir. A justiça e o seu conceito fazem parte disso. Saber o que é certo, mas sempre duvidar dele e entender que o certo se veste com uma outra roupagem que, às vezes, contradiz o que vemos e em que acreditamos. Saber ver e ter a humildade de querer saber.

13--Assim sou eu.

14--Essas partes que dizem de mim, que traduzem e determinam a minha moral, os meus valores, só fazem sentido para mim e talvez um pouco para os outros, para os que eu amo e para os que me amam. Para os que de certa forma eu influenciei, porque todos influenciamos alguém na vida

15--Porque assim está determinado, dizem, no fundo da Galáxia de Órion, pra além da Via Láctea, lá nos confins do Universo, perto do grande buraco negro que suga o universo a sua volta, onde estão escritos os destinos dos seres humanos

16--Temos apenas de decifrar as mensagens das estrelas e tentar perceber, olhando o firmamento, como faziam os gregos, quão pequenos e insignificantes somos e entender de uma vez por todas as duas grandes e fundamentais verdades do ser humano:

17--É muito chato fazer ginástica, e não dá para ver o firmamento quando há nuvens no céu e está chovendo.


ALCAZAR, Luiz. Disponível em: . Acesso: <http://eupensoeoutrasbobagens.blogspot.com.br/2010/01/um-pouco-de-filosofia-e-o-conceito-de.html>15 set. 2017. (Adaptado).




A falta de aplicação do conceito de justiça do texto 3 pode ser considerada uma das causas da histórica situação de desigualdade presente na sociedade brasileira. Uma justificativa para reversão desse quadro pode ser pressuposta da seguinte frase do texto 1:


A

“Às vezes, não temos a coragem necessária de estabelecermos um conceito próprio e viver por ele”.


B

“o certo se veste com uma outra roupagem que, às vezes, contradiz o que vemos e em que acreditamos”.


C

“Quando ele dizia que a única coisa que sabia era o que nada sabia, ele nos mandou uma extraordinária mensagem”.


D

“Sócrates entendeu que o que nos move, o que nos faz viver é a certeza do nosso coração”.


E

“Temos apenas de decifrar as mensagens das estrelas e tentar perceber, olhando o firmamento, como faziam os gregos”.