Regina Benevides (2005), em seu artigo A psicologia e o sistema único de saúde: quais interfaces?, assinala que:
“O paradigma que está norteando tais afirmações é o de que ciência e política são duas esferas separadas e de que as práticas psi ao se encarregarem do sujeito não devem tratar de questões políticas. Tal ascese, pretendida por muitos e, afirmada por tantos outros como alcançada, tem sistematicamente colocado o desejo como algo da ordem do individual, ou como questão do sujeito e a política como da ordem do social, ou como questão do coletivo. O efeito-despolitização neste tipo de análise é notório, posto que as práticas psi passam a se ocupar de sujeitos abstratos, abstraídos/alienados de seus contextos e tomam suas expressões existenciais como produtos/dados a serem reconhecidos em universais apriorísticos. Digo despolitização para marcar o lugar exterior, separado, em que a política, em suas mais variadas formas, é lançada quando se trata da análise das questões subjetivas. Entretanto, o mais correto seria dizer que aí também há a produção de uma certa política: aquela que coloca de um lado a macropolítica e, de outro, a micropolítica; de um lado, o Sistema Único de Saúde como dever do Estado e direito dos cidadãos, como conquista garantida pela lei, pela Constituição e, de outro, os processos de produção de subjetividade. Aqui, me parece, há uma pista importante para seguirmos, pois é a partir da fundação da Psicologia nestas dicotomias que o individual se separou do social, que a clínica se separou da política, que o cuidado com a saúde das pessoas se separou do cuidado com a saúde das populações, que a clínica se separou da saúde coletiva, que a Psicologia se colocou à margem de um debate sobre o SUS”.
Neste trabalho, a autora se refere a:
Uma preocupação com a saúde pública e com a inserção do trabalho do Psicólogo sobre modos de intervenção distintos daqueles observados nos enquadres clássicos.
Negar as relações entre o capitalismo contemporâneo, o exercício da clínica e a produção de subjetividade.
Asseverar a função específica do Psicólogo, apolítica, para a autora, com ênfase aos cuidados do indivíduo.
Asseverar que no Sistema Único de Saúde não há lugar para o Psicólogo, pois este necessita de um setting específico.