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[…] na URSS, o historiador do Partido Comunista passou a ter uma função similar a dos teólogos do Islã ou da Cristandade: seus ensinamentos têm por objetivo reforçar e engrandecer as instituições existentes. Evidentemente, essa função não é apanágio do regime soviético, mas seus dirigentes, a começar por Stálin, levaram-na a limites extremos, transformando e desfigurando o passado ao sabor dos desejos caprichosos da linha política, encoberta sob o nome de necessidades da História que está por ser feita.
(Marc Ferro, A manipulação da história no ensino e nos meios de comunicação)
Segundo Marc Ferro, no contexto apresentado, a desfiguração do passado pode ser verificada quando
as principais diretrizes econômicas do czarismo foram ignoradas ou subestimadas, decorrendo dessa leitura do passado a compreensão de que a origem da indústria russa esteve ligada aos Planos Quinquenais da Era Stalinista.
a ação atribuída aos adversários do Partido Bolchevique, caso dos mencheviques, sociais-revolucionários, anarquistas, às vezes é visivelmente contrária à verdade, e isso se tornou ainda mais caricatural quando se trata de Leon Trotsky.
as lideranças do Partido Comunista da URSS após a Era Stalinista, em plena Guerra Fria, disseminam a ideia de que os descaminhos revolucionários derivavam de uma série de erros políticos de Lênin.
os líderes históricos da Revolução de Outubro, Zinoviev e Kamenev, foram acusados, pelos aliados de Trotsky, de negociar uma paz em separado com a Alemanha nazista, às vésperas da Segunda Guerra.
o papel das três principais lideranças da Revolução de Outubro – Lênin, Trotsky e Stálin – é colocado como secundário para o sucesso revolucionário, além de atribuir aos mencheviques a burocratização do Estado soviético.