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Durante quase três séculos, o Tribunal do Santo Ofício ultrapassou as várias dificuldades e obstáculos que lhe surgiram durante este longo período. Um dos pilares da preservação do Tribunal foi justamente a sua estrutura orgânica e a possibilidade que abria à população de associar-se, em vários níveis, a uma instituição que garantia promoção e distinção social, segundo as dinâmicas da economia da mercê. O grande número de cartas de familiar do Santo Ofício criou uma base social de apoio à Inquisição. Importa sublinhar que, naquela sociedade de Antigo Regime, ser tido por nobre, ter e ser de conhecimento público que se tinha sangue limpo, alcançar um estatuto honrado e ascender socialmente era um desejo e objetivo partilhado pela generalidade dos indivíduos; a que se chegava, em grande medida, após um longo percurso de serviços prestados à Coroa, às vezes por mais de uma geração e, onde, geralmente, se procedia a inquirições na genealogia familiar e inspeções cruzadas nas habilitações recebidas por diferentes instituições.
SANTOS, Marília Cunha Imbiriba dos. Família, trajetórias e Inquisição: Mobilidade Social na Amazônia Colonial (c. 1672 – c. 1805). Tese (Doutorado em História), Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, Lisboa, 2020. p. 101.
A figura do Familiar do Santo Ofício, destacado pela historiadora Marília Cunha Imbiriba dos Santos, no que tange à experiência histórica e ao debate historiográfico acerca da sociedade na Amazônia Colonial, tinha como função essencial a:
Cooperação com os cristãos novos em suas mais diversas estratégias de resistências de cunho religioso.
Denunciação aos processos religiosos desviantes aos princípios estabelecidos pela lógica cristã romana.
Imposição religiosa nos espaços coloniais com a finalidade de garantir a hegemonia huguenote.
Difusão da fé cristã a partir do fortalecimento dos princípios da cristandade ortodoxa ocidental.
Busca pela garantia inalienável das liberdades individuais, notadamente as de caráter religioso.