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Leia o poema a seguir.
Maio 1964
Na leiteira a tarde se reparte
em iogurtes, coalhadas, copos
de leite e, no espelho, meu rosto.
São quatro horas da tarde, em maio.
Tenho 33 anos e uma gastrite.
Amo a vida que é cheia de crianças,
de flores e mulheres,
a vida, esse direito de estar no mundo,
ter dois pés e mãos,
uma cara e a fome de tudo, a
esperança.
Esse direito de todos
que nenhum ato institucional
ou constitucional pode cassar ou legar.
Mas quantos amigos presos!
Quantos em cárceres escuros
onde a tarde fede a urina e terror.
Há muitas famílias sem rumo
esta tarde nos subúrbios de ferro e
gás onde brinca irremida
a infância da classe operária.
Estou aqui.
O espelho não guardará a marca deste rosto,
se simplesmente saio do lugar
ou se morro se me matam.
Estou aqui e não estarei,
um dia, em parte alguma.
Que importa, pois?
A luta comum me acende o sangue
e me bate no peito como o coice de uma lembrança.
GULLAR, Ferreira. Dentro da Noite Veloz. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, pp. 37-38.
A leitura do poema “Maio de 1964” de Ferreira Gullar foi proposta por um docente como atividade didática sobre os governos militares (1964/1985), tendo as manifestações artísticas como objeto de estudo.
A respeito dessa atividade, assinale a afirmativa correta.
Permite ampliar o conhecimento sobre expressões culturais de oposição ao governo militar.
Explicita episódios que revelam a cooperação da sociedade em relação ao regime político vigente.
Apresenta uma forma de apatia social diante dos casos de violência institucional.
Expõe uma possibilidade analítica sobre as políticas de valorização artística por parte do governo militar.
Desenvolve o senso crítico sobre obras literárias produzidas por setores políticos dirigentes.