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No trecho “As aulas de língua portuguesa podem não apenas...

GRAMÁTICAS: ROTA ALTERNATIVA PARA AS AULAS DE PORTUGUÊS


E nós estamos ainda no processo de aprender como fazer democracia. E a luta por ela passa pela luta contra todo tipo de autoritarismo.


Paulo Freire, 2000: 136.


1.1 O ALUNO QUE CONSTRÓI GRAMÁTICAS


Este livro busca refletir sobre a contribuição que a Linguística atual pode dar para a formação (continuada) do

professor de Língua Portuguesa, ao mesmo tempo em que pretende mostrar possibilidades de atuação do bacharel em

Linguística na escola que vão para além da sala de aula. Pode parecer surpreendente à primeira vista, mas a Linguística, uma

disciplina científica que busca compreender as línguas naturais, aquelas que adquirimos em casa, sem instrução formal, tem um

5 lugar na escola e não apenas na sala de aula. O seu papel no ensino não é tema novo. Há várias propostas para a Linguística entrar

na escola. Nossa proposta é que o professor juntamente com os seus alunos se aventure a elaborar gramáticas (ou fragmentos

de gramáticas). Fomos influenciadas pela leitura das experiências didáticas descritas em Chomsky et al. (1985), Carey et al. (1989),

O'Neil et al. (2004) e O'Neil et al. (2010), entre outros, que mostram que a reflexão sobre uma língua natural ensina o método

científico, auxilia no ensino de ciências e matemática e desenvolve as capacidades de leitura e escrita. Esses projetos foram

10 desenvolvidos com comunidades carentes nos Estados Unidos — em comunidades indígenas americanas — e na África, em escolas sem

infraestrutura, sem laboratórios, sem bibliotecas. Refletir sobre a linguagem exige apenas um bom professor, quadro-negro e a intuição

dos alunos. Essa é uma maneira de ensinar a raciocinar cientificamente com pouquíssimos recursos. Além disso, essas experiências

mostram que realizar essa reflexão resultou em escritores e leitores mais habilidosos. Uma outra razão para utilizarmos a Linguística na

escola é o fato de que ela permite a inclusão de todos os falares (e, portanto, de todos os falantes), não apenas de variedades diferentes

15 do português, variedades que são estigmatizadas socialmente — e esse é também um aspecto que a Linguística ajuda a esclarecer —,

mas principalmente de falantes de outras línguas, como, por exemplo, a língua de sinais brasileira. As aulas de língua portuguesa podem

não apenas versar sobre o português e suas variedades, elas podem ser uma oportunidade para se conhecer outras línguas,

compará-las.

Neste livro, imaginamos aulas de português diferentes, como momentos em que as línguas e suas gramáticas ganham

20 proeminência, o que permite tornar essas aulas espaços de interação com outras disciplinas, com as quais em geral não há conversa,

como, por exemplo, a matemática; são também uma intervenção na sociedade, não apenas para desmistificar muitos dos

preconceitos que a sociedade brasileira ainda tem quanto à língua, mas principalmente para formar cidadãos críticos, que sabem

avaliar um argumento.

As aulas de português, nesta proposta, são momentos privilegiados em que o aluno se reconhece, valoriza sua fala,

25 entende o lugar da sua fala e a do outro na sociedade, ao mesmo tempo em que aprende a construir modelos científicos, a

raciocinar através da formulação e refutação de hipóteses; afinal, gramáticas nada mais são do que modos de explicação para um

fenômeno da natureza — as línguas naturais, que são uma característica exclusiva dos seres humanos. Um dos objetivos deste

livro é pavimentar um caminho que nos leve a entender as línguas sob esse outro prisma, que não é nem literário, nem o da sua

utilidade para aprender a ler e a escrever — ambos, obviamente, legítimos e necessários —, mas sim aquele do olhar curioso para

30 um fenômeno natural, que caracteriza a atividade científica. Esse fenômeno é a língua que falamos em casa, na nossa intimidade,

com os nossos familiares e amigos. A língua que o aluno traz para a escola.

Essa perspectiva permite o florescimento da cidadania, porque leva o aluno a perceber a língua de maneira diferente,

como a sua maneira de ser. A sua língua é a sua maneira de ser, e a exclusão dessa maneira de ser tem efeitos negativos também na

aprendizagem da leitura e da escrita. Somos as línguas que falamos. Nossa língua materna é um componente fundamental da nossa

35 identidade, não apenas como pessoa, mas também como povo. Não somos cidadãos plenos se temos vergonha da nossa fala,

se negamos até hoje que há um português brasileiro, que tem características próprias reconhecidas há séculos, e se vemos no

português da gente, na feliz expressão de Ilari e Basso (2006), um motivo de chacota porque "não sabemos falar". Note que é a

colônia que não sabe falar; é a fala da colônia que é errada. Esses são indícios de uma subjetividade em desacordo consigo, porque

não aceita o que é. Legitimar a língua que falamos, nossa identidade linguística, é uma das funções da escola, que pode ser realizada

40 observando as línguas, construindo, juntamente com os alunos, gramáticas para explicá-las. Nesse percurso vão aparecer outras

línguas, outras gramáticas. Contrariamente ao senso comum, que acredita haver uma única língua no Brasil, há muitas línguas no

Brasil, somos multilíngues.


O texto acima trata-se do primeiro capítulo da obra “Gramática na escolas”, escrita pelas pesquisadoras Roberta Pires e Sandra Quarezemin. Na obra, as autoras procuram gerar reflexão sobre o papel do linguista nas salas de aula e nas escolas, com o objetivo de demonstrar que, em razão da chamada “língua natural”, é possível construir “gramáticas” e melhorar a educação do País. Com base nesse texto, em seus conhecimentos em linguística, em gramática, em literatura e em ensino de língua, responda às 15 questões abaixo.

No trecho “As aulas de língua portuguesa podem não apenas versar sobre o português e suas variedades, elas podem ser uma oportunidade para se conhecer outras línguas, comparálas.” (linhas 16 a 18), pode-se inferir que as autoras pretenderam validar a lógica da


A

linguística comparada.


B

textualidade.


C

gramática instrumental.


D
gramática normativa

E

exegese teleológica