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Ao referir-se ao verso de Camões, o eu lírico do texto I...

Texto I


O homem; as viagens


O homem, bicho da Terra tão pequeno

chateia‐se na Terra

lugar de muita miséria e pouca diversão,

faz um foguete, uma cápsula, um módulo

05 toca para a Lua

desce cauteloso na Lua

pisa na Lua

planta bandeirola na Lua

experimenta a Lua

10 coloniza a Lua

civiliza a Lua

humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.

O homem chateia‐se na Lua.


15 Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.

Elas obedecem, o homem desce em Marte

pisa em Marte

experimenta

coloniza

20 civiliza

humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.

Vamos a outra parte?


Claro — diz o engenho

25 sofisticado e dócil.

Vamos a Vênus.

O homem põe o pé em Vênus,

vê o visto — é isto?

idem

30 idem

idem.


O homem funde a cuca se não for a Júpiter

proclamar justiça junto com injustiça

repetir a fossa

30 repetir o inquieto

repetitório.


Outros planetas restam para outras colônias.

O espaço todo vira Terra‐a‐terra.

O homem chega ao Sol ou dá uma volta

40 só para tever?

Não‐vê que ele inventa

roupa insiderável de viver no Sol.

Põe o pé e:

mas que chato é o Sol, falso touro

45 espanhol domado.


Restam outros sistemas fora

do solar a col‐

onizar.

Ao acabarem todos

50 só resta ao homem

(estará equipado?)

a dificílima dangerosíssima viagem

de si a si mesmo:

pôr o pé no chão

55 do seu coração

experimentar

colonizar

civilizar

humanizar

60 o homem

descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas

a perene, insuspeitada alegria

de con‐viver.


(ANDRADE, Carlos Drummond de. As impurezas do branco. In: Nova reunião: 19 livros de poesia. Rio de janeiro: José Olympio, 1985.)


Texto II


Os lusíadas (fragmento)

No mar, tanta tormenta e tanto dano,

Tantas vezes a morte apercebida;

Na terra, tanta guerra, tanto engano,

Tanta necessidade avorrecida!

05 Onde pode acolher‐se um fraco humano,

Onde terá segura a curta vida,

Que não se arme e se indigne o Céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno?

(CAMÕES, Luís de. Os lusíadas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.)

Ao referir-se ao verso de Camões, o eu lírico do texto I, já na abertura do poema, concretiza uma relação intertextual que


A

subverte o sentido original, uma vez que se pode depreender da leitura integral do poema o sentido irônico com que foi empregado o verso.


B

reitera o sentido original, por confirmar o caráter heroico do homem, capaz de conquistar os mares no século XV e o espaço sideral no século XX.


C

reitera o sentido original, por enaltecer a coragem aventureira dos nautas do século XV e dos astronautas do século XX.


D

subverte o sentido original, embora a leitura integral do poema permita afirmar o caráter heroico desse “bicho da Terra tão pequeno”.