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Texto IV
Vou‐me embora pra Pasárgada
Vou‐me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
05 Vou‐me embora pra Pasárgada
Vou‐me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
10 Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
15 Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau de sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
20 Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
25 Vou‐me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
30 Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
35 Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
40 Na cama que escolherei
Vou‐me embora pra Pasárgada.
(BANDEIRA, Manuel. Libertinagem. In: Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986.)
Uma das principais características desse poema (texto IV) é o diálogo que mantém com outros textos e com outros discursos.
Assinale a opção cuja afirmativa NÃO se sustenta em função das possíveis leituras do texto.
O tema da evasão em busca de um espaço almejado, ainda que sob perspectivas diferentes, permite aproximar o poema do Arcadismo brasileiro.
A concretização de dois espaços - um relativo ao real rejeitado e outro relativo ao lugar idealizado - estabelece um diálogo com a “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias.
O desejo de fugir para Pasárgada e reviver a infância recupera a temática desenvolvida em “Evocação do Recife” e “Infância”, num processo intratextual.
O tema da viagem e da fuga recupera integralmente a visão do Romantismo, cuja idealização lembra um topoi desse movimento.