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Texto IV
Vou‐me embora pra Pasárgada
Vou‐me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
05 Vou‐me embora pra Pasárgada
Vou‐me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
10 Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
15 Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau de sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
20 Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
25 Vou‐me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
30 Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
35 Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
40 Na cama que escolherei
Vou‐me embora pra Pasárgada.
(BANDEIRA, Manuel. Libertinagem. In: Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986.)
Texto V
No lar
Terra da minha pátria, abre‐me o seio
Na morte ‒ ao menos........
Garrett
I
Longe da pátria, sob um céu diverso
Onde o sol como aqui tanto não arde,
Chorei saudades do meu lar querido
─ Ave sem ninho que suspira à tarde. ─
05 No mar ─ de noite ─ solitário e triste
Fitando os lumes que no céu tremiam,
Ávido e louco nos meus sonhos d'alma
Folguei nos campos que meus olhos viam
[...]
Eis‐me na pátria, no país das flores,
10 ─ O filho pródigo a seus lares volve,
E consertando as suas vestes rotas,
O seu passado com prazer revolve! ─
Eis meu lar, minha casa, meus amores,
A terra onde nasci, meu teto amigo,
15 A gruta, a sombra, a solidão, o rio
Onde o amor me nasceu — cresceu comigo.
Os mesmos campos que eu deixei criança,
Árvores novas... tanta flor no prado!...
Oh! como és linda, minha terra d’alma,
20 — Noiva enfeitada para o seu noivado! —
Foi aqui, foi ali, além... mais longe,
Que eu sentei‐me a chorar no fim do dia;
— Lá vejo o atalho que vai dar na várzea...
Lá o barranco por onde eu subia!...
25 Acho agora mais seca a cachoeira
Onde banhei‐me no infantil cansaço...
— Como está velho o laranjal tamanho
Onde eu caçava o sanhaçu a laço!...
Como eu me lembro dos meus dias puros!
30 Nada me esquece!... e esquecer quem há de?...
— Cada pedra que eu palpo, ou tronco, ou folha,
Fala‐me ainda dessa doce idade!
Eu me remoço recordando a infância,
E tanto a vida me palpita agora
35 Que eu dera oh! Deus! A mocidade inteira
Por um só dia do viver d’outrora!
[…]
(ABREU, Casimiro de. “No lar” IN: SIMPSON, Pablo et alii. Antologia da poesia romântica brasileira. São Paulo: Companhia Editora Nacional: Lazuli Editora, 2007.)
Os poetas do Modernismo brasileiro estabeleceram um diálogo bastante profícuo com o Romantismo por meio de um processo simultâneo de desconstrução/reconstrução de elementos temáticos e formais. Considerando os poemas “No lar”, de Casimiro de Abreu, e “Vou-me embora pra Pasárgada”, de Manuel Bandeira, assinale a alternativa correta.
Ao atualizar o tema da evasão romântica, Bandeira aborda também a dicotomia entre o presente e o passado; entre a criança e o adulto.
O poema de Manuel Bandeira rompe com o texto de Casimiro de Abreu graças à carga de idealização que o poeta romântico agrega à infância.
A métrica empregada por Manuel Bandeira afasta-o do poema de Casimiro de Abreu e, de certa forma, da produção poética romântica como um todo.
O verso “É outra civilização”, na quarta estrofe de “Vou-me embora pra Pasárgada”, é um índice do afastamento temporal entre os dois poemas.