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Em relação ao plano formal e ao semântico do trecho de...

Texto VI


O retirante tem medo de se extraviar porque seu guia, o

Capibaribe, cortou com o verão


─ Antes de sair de casa

aprendi a ladainha

das vilas que vou passar

na minha longa descida.

05 Sei que há muitas vilas grandes,

cidades que elas são ditas;

sei que há simples arruados,

sei que há vilas pequeninas,

todas formando um rosário

10 cujas contas fossem vilas,

de que a estrada fosse a linha.

Devo rezar tal rosário

até o mar onde termina,

saltando de conta em conta,

15 passando de vila em vila.

Vejo agora: não é fácil

seguir essa ladainha

entre uma conta e outra conta,

entre uma e outra ave‐maria,

20 há certas paragens brancas,

de planta e bicho vazias,

vazias até de donos,

e onde o pé se descaminha.

Não desejo emaranhar

25 o fio de minha linha

nem que se enrede no pelo

hirsuto desta caatinga.

Pensei que seguindo o rio

eu jamais me perderia:

30 ele é o caminho mais certo,

de todos o melhor guia.

Mas como segui‐lo agora

que interrompeu a descida?

Vejo que o Capibaribe,

35 como os rios lá de cima,

é tão pobre que nem sempre

pode cumprir sua sina

e no verão também corta,

com pernas que não caminham.

40 Tenho que saber agora

qual a verdadeira via

entre essas que escancaradas

frente a mim se multiplicam.

Mas não vejo almas aqui,

45 nem almas mortas nem vivas

ouço somente à distância

o que parece cantoria.

Será novena de santo,

será algum mês‐de‐Maria

50 quem sabe até se uma festa

ou uma dança não seria?


(MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida severina. In: OLIVEIRA, Marly de (org). Obra completa. Rio de Janeiro:Nova Aguilar, 1994.)

Em relação ao plano formal e ao semântico do trecho de Morte e vida severina, assinale a afirmativa procedente.


A

A metáfora do rosário, recurso imagético para sinalizar a viagem, encontra sua correspondência sintática particularmente nos mecanismos de subordinação.


B

O emprego de dois pontos, além de sugerir as pausas no percurso do viajante, reforça, ainda, o caráter elíptico da linguagem de João Cabral.


C

A rima assonante em /i/ contribui para o tom monocórdio do texto, mas não supre a ausência das rimas consonantais na construção rítmica do poema.


D

A presença de formas verbais no futuro do presente e no futuro do pretérito, nos últimos versos, introduz no poema um tom reflexivo, garantindo a abrangência existencial do texto.