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O recurso do discurso indireto livre, que se caracteriza...

Texto VII


Fuga


Os meninos sumiam‐se numa curva do caminho. Fabiano adiantou‐se para alcançá‐los. Era preciso aproveitar

a disposição deles, deixar que andassem à vontade. Sinha Vitória acompanhou o marido, chegou‐se aos filhos.

Dobrando o cotovelo da estrada, Fabiano sentia distanciar‐se um pouco dos lugares onde tinha vivido alguns anos;

o patrão, o soldado amarelo e a cachorra Baleia esmoreceram no seu espírito.

05 (...) Os pés calosos, duros como cascos, metidos em alpercatas novas, caminhariam meses. Ou não

caminhariam? Sinha Vitória achou que sim. Fabiano agradeceu a opinião dela e gabou‐lhe as pernas grossas, as

nádegas volumosas, os peitos cheios. As bochechas de sinha Vitória avermelharam‐se e Fabiano repetiu com

entusiasmo o elogio. Era. Estava boa, estava taluda, poderia andar muito. Sinha Vitória riu e baixou os olhos. Não

era tanto como ele dizia não. Dentro de pouco tempo estaria magra, de seios bambos. Mas recuperaria carnes. E

10 talvez esse lugar para onde iam fosse melhor que os outros onde tinham estado. Fabiano estirou o beiço,

duvidando. Sinha Vitória combateu a dúvida. Por que não haveriam de ser gente, possuir uma cama igual à de

seu Tomás da bolandeira? Fabiano franziu a testa: lá vinham os despropósitos. Sinha Vitória insistiu e dominou‐o.

Por que haveriam de ser sempre desgraçados, fugindo no mato como bichos? Com certeza existiam no mundo

coisas extraordinárias. Podiam viver escondidos , como bichos? Fabiano respondeu que não podiam.

15 — O mundo é grande.

Realmente para eles era bem pequeno, mas afirmavam que era grande – e marchavam, meio confiados, meio

inquietos. Olharam os meninos que olhavam os montes distantes, onde havia seres misteriosos. Em que estariam

pensando? Zumbiu sinha Vitória. Fabiano estranhou a pergunta e rosnou uma objeção. Menino é bicho miúdo,

não pensa. Mas sinha Vitória renovou a pergunta – e a certeza do marido abalou‐se. Ela devia ter razão. Tinha

20 sempre razão. Agora desejava saber que iriam fazer os filhos quando crescessem.

— Vaquejar, opinou Fabiano.

Sinha Vitória, com uma careta enjoada, balançou a cabeça negativamente, arriscando‐se a derrubar o baú de

folha. Nossa Senhora os livrasse de semelhante desgraça. Vaquejar, que ideia! Chegariam a uma terra distante,

esqueceriam a catinga onde havia montes baixos, cascalhos, rios secos, espinho, urubus, bichos morrendo, gente

25 morrendo. Não voltariam nunca mais, resistiriam à saudade que ataca os sertanejos na mata. Então eles eram

bois para morrer tristes por falta de espinhos? Fixar‐se‐iam muito longe, adotariam costumes diferentes.


(RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2000.)

O recurso do discurso indireto livre, que se caracteriza por misturar as vozes do narrador e das personagens sem demarcar precisamente seus limites, foi empregado com ênfase ao longo do romance Vidas secas.


A respeito desse procedimento linguístico presente no fragmento destacado, é possível afirmar que


A

na frase “Menino é bicho miúdo, não pensa” (linhas 18 e 19), o emprego do discurso indireto livre traduz o estado mental da personagem conservando a vivacidade do estilo direto.


B

a frase “Em que estariam pensando?” (linhas 17 e 18), atribuída a sinha Vitória, empregada desvinculadamente do verbo dicendi, exemplifica o discurso indireto livre.


C

a manutenção do registro da fala de sinha Vitória “Com certeza existiam no mundo coisas extraordinárias” (linhas 13 e 14), transcrita em seu próprio nome, confirma a aproximação da voz do narrador com a voz da personagem, que se confundem.


D

em “Por que haveriam de ser sempre desgraçados, fugindo no mato como bichos?” (linha 13), a manutenção da interrogação na sua forma originária afasta a identificação do narrador com a personagem, típica do discurso indireto livre.