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Padre Antônio Vieira, vigoroso sermonista barroco e exímio...

Texto IX


Sermão da Primeira Dominga do Advento (fragmento)


Deste tudo que está sempre passando, é o homem não só a parte principal, mas verdadeiramente o tudo do

mesmo tudo. E vendo o homem com olhos abertos e, ainda os cegos, como tudo passa, só nós vivemos como se

não passáramos. Somos como os que navegando com vento e maré, e correndo velocissimamente pelo Tejo

acima, se olham fixamente para a terra, parece‐lhes que os montes, as torres, e a cidade é a que passa; e os que

05 passam são eles.

(...) Todos vamos embarcados na mesma nau, que é a vida, e todos navegamos com o mesmo vento, que é o

tempo; e assim como na nau uns governam o leme, outros mareiam as velas; uns vigiam, outros dormem; uns

passeiam, outros estão assentados; uns cantam, outros jogam, outros comem, outros nenhuma coisa fazem, e

todos igualmente caminham ao mesmo porto; assim nós, ainda que o não pareça, insensivelmente vamos

10 passando sempre, e avizinhando‐se cada um ao seu fim; porque tu, conclui Ambrósio, dormes, e o teu tempo

anda: Tu dormis, et tempus tuum ambulat. Disse pouco em dizer que o tempo anda, porque corre e voa; mas

advertiu bem em notar que nós dormimos; porque tendo olhos abertos para ver que tudo passa, só para

considerar que nós também passamos, parece que os temos fechados.

Considerando este contínuo passar do homem (não fora de si, senão onde verdadeiramente parecer que está

15 e permanece, que é dentro de si mesmo) diziam os sábios da Grécia, como refere Eusébio Cesariense, que todo o

homem que chega a ser velho, morre seis vezes. E como? Passando da infância à puerícia, morre a infância;

passando da puerícia à adolescência, morre a puerícia; passando da adolescência à juventude, morre a

adolescência; passando da juventude à idade do varão, morre a juventude; passando da idade do varão à velhice,

morre a idade do varão; e, finalmente, acabando de viver por tanta continuação e sucessão de morte, com a

20 última, morre a velhice. (...) Se o sol, que sempre é o mesmo, todos os dias tem um novo nascimento, e um novo

ocaso, quanto mais o homem por sua natural inconstância tão mutável, que nenhum é hoje o que foi ontem, nem

há de ser amanhã o que é hoje!

(VIEIRA, Antônio. “Sermão da Primeira Dominga do Advento” In: VIEIRA, Antônio. Sermões. São Paulo: Editora Três, 1974.)

Padre Antônio Vieira, vigoroso sermonista barroco e exímio artista da palavra, constrói sua prosa valendo-se de inúmeros artifícios retóricos postos a serviço do pensamento crítico.


Tendo em vista a afirmativa, assinale a opção em que a análise está de acordo com o fragmento lido do “Sermão da Primeira Dominga do Advento”.


A

Percebe-se o distanciamento do estilo da oratória sagrada que favorece e requer a repetição progressiva e lógica visando à síntese unificadora.


B

O orador complexo e sutil mostra-se mais cultista do que conceptista na sua crítica ao comportamento cego do homem diante da vida transitória.


C

A metáfora, uma das linhas básicas da arte compositiva dos sermões de Vieira, faz-se presente nas imagens da “nau”, do “vento”, do “porto” e do “sol”.


D

As tensões entre vida e morte, acentuadas pelo passar do tempo, unificam-se numa síntese capaz de estabelecer uma conclusão lógica acerca do comportamento do homem.