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Os verbos, em língua portuguesa, podem distinguir-se pela...

Texto X


Vestida de preto



Tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei bem se o que vou contar é conto ou não, sei

que é verdade. Minha impressão é que tenho amado sempre. Depois do amor grande por mim que brotou aos

três anos e durou até os cinco mais ou menos, logo o meu amor se dirigiu para uma espécie de prima longínqua

que frequentava a nossa casa. […]

05 Maria foi o meu primeiro amor. Não havia nada entre nós, está claro, ela como eu nos seus cinco anos

apenas, mas não sei que divina melancolia nos tomava, se acaso nos achávamos juntos e sozinhos. A voz baixava

de tom, e principalmente as palavras é que se tornaram mais raras, muito simples. Uma ternura imensa, firme e

reconhecida, não exigindo nenhum gesto. [...]

E só mais tarde, já pelos nove ou dez anos, é que lhe dei nosso único beijo, foi maravilhoso. […]

10 Durasse aquilo uma noite grande, nada mais haveria porque é engraçado como a perfeição fixa a gente. O

beijo me deixara completamente puro, sem minhas curiosidades nem desejos de mais nada, adeus pecado e

adeus escuridão! Se fizera em meu cérebro uma enorme luz branca, meu ombro bem que doía no chão, mas a luz

era violentamente branca, proibindo pensar, imaginar, agir. Beijando.

Tia Velha, nunca eu gostei de Tia Velha, abriu a porta com um espanto barulhento. Percebi muito bem, pelos

15 olhos dela, que o que estávamos fazendo era completamente feio. [...]

O estranhíssimo é que principiou, nesse acordar à força provocado por Tia Velha, uma indiferença

inexplicável de Maria por mim. Mais que indiferença, frieza viva, quase antipatia. Nesse mesmo chá inda achou

jeito de me maltratar diante de todos, fiquei zonzo.

Dez, treze, quatorze anos... Quinze anos. Foi então o insulto que julguei definitivo. [...]

20 Esse ano até fora uma bomba só. Eu entrava da aula do professor particular, quando enxerguei a saparia na

varanda e Maria entre os demais. Passei bastante encabulado, todos em férias, e os livros que eu trazia na mão

me denunciando, lembrando a bomba, me achincalhando em minha imperfeição de caso perdido. Esbocei um

gesto falsamente alegre de bom‐dia, e fui no escritório pegado, esconder os livros na escrivaninha de meu pai. Ia

já voltar para o meio de todos, mas Matilde, a peste, a implicante, a deusa estúpida que Tia Velha perdia com suas

25 preferências:

— Passou seu namorado, Maria.

— Não caso com bombeado — ela respondeu imediato, numa voz tão feia, mas tão feia, que parei

estarrecido. Era a decisão final, não tinha dúvida nenhuma. Maria não gostava mais de mim. Bobo de assim

parado, sem fazer um gesto, mal podendo respirar. [...]

30 Foi o fim? Agora é que vem o mais esquisito de tudo, ajuntando anos pulados. Acho que até não consigo

contar bem claro tudo o que sucedeu. Vamos por ordem: Pus tal firmeza em não amar Maria mais, que nem meus

pensamentos me traíram. De resto a mocidade raiava e eu tinha tudo a aprender. Foi espantoso o que se passou

em mim. Sem abandonar o meu jeito de “perdido”, o cultivando mesmo, ginásio acabado, eu principiara gostando

de estudar. [...]

35 Maria, por seu lado, parecia uma doida. Namorava com Deus e todo o mundo, aos vinte anos fica noiva de

um rapaz bastante rico, noivado que durou três meses e se desfez de repente, pra dias depois ela ficar noiva de

outro, um diplomata riquíssimo, casar em duas semanas com alegria desmedida, rindo muito no altar e partir em

busca duma embaixada europeia com o secretário chique seu marido. […]

Foi quando uns cinco anos depois, Maria estava pra voltar pela primeira vez ao Brasil, a mãe dela, queixosa

40 de tamanha ausência, conversando com mamãe na minha frente, arrancou naquele seu jeito de gorda desabrida:

— Pois é, Maria gostou tanto de você, você não quis!... e agora ela vive longe de nós.

Pela terceira vez fiquei estarrecido neste conto. Percebi tudo num tiro de canhão. Percebi ela doidejando,

noivando com um, casando com outro, se atordoando com dinheiro e brilho. Percebi que eu fora uma besta, sim

agora que principiava sendo alguém, estudando por mim fora dos ginásios, vibrando em versos que muita gente já

45 considerava. E percebi horrorizado, que Rose! nem Violeta, nem nada! era Maria que eu amava como louco! [...]

Bom, tinha que visitar Maria, está claro, éramos “gente grande” agora. Quando soube que ela devia ir a um

banquete, pensei comigo: “ótimo, vou hoje logo depois de jantar, não encontro ela e deixo o cartão”. Mas fui cedo

demais. [...]

Contemplando a gravura cor‐de‐rosa, senti de supetão que tinha mais alguém na saleta, virei. Maria estava

50 na porta, olhando pra mim, se rindo, toda vestida de preto. Olhem: eu sei que a gente exagera em amor, não

insisto. Mas se eu já tive a sensação da vontade de Deus, foi ver Maria assim, toda de preto vestida,

fantasticamente mulher. Meu corpo soluçou todinho e tornei a ficar estarrecido.

— Ao menos diga boa‐noite, Juca...

“Boa‐noite, Maria, eu vou‐me embora”... meu desejo era fugir, era ficar e ela ficar mas, sim, sem que nos

55 tocássemos sequer. Eu sei, eu juro que sei que ela estava se entregando a mim, me prometendo tudo, me

cedendo tudo quanto eu queria, naquele se deixar olhar, sorrindo leve, mãos unidas caindo na frente do corpo,

toda vestida de preto. Um segundo, me passou na visão devorá‐la numa hora estilhaçada de quarto de hotel, foi

horrível. Porém, não havia dúvida: Maria despertava em mim os instintos da perfeição. Balbuciei afinal um boa‐

‐noite muito indiferente, e as vozes amontoadas vinham do hol, dos outros que chegavam.

60 Foi este o primeiro dos quatro amores eternos que fazem de minha vida uma grave condensação interior. Sou

falsamente um solitário. Quatro amores me acompanham, cuidam de mim, vêm conversar comigo. Nunca mais vi

Maria, que ficou pelas Europas, divorciada afinal, hoje dizem que vivendo com um austríaco interessado em feiras

internacionais. Um aventureiro qualquer. Mas dentro de mim, Maria... bom: acho que vou falar banalidade.


(ANDRADE, Mário de. Contos novos. Belo Horizonte‐Rio de Janeiro: Villa Rica, 1993.)

Os verbos, em língua portuguesa, podem distinguir-se pela modalidade com que expressam as atitudes do enunciador ou por sua natureza aspectual, reveladora dos eventos ou estados denotados. No fragmento “Tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei bem se o que vou contar é conto ou não (...) (linha 1)”, retirado do texto X, a primeira ocorrência verbal apresenta aspecto


A

inceptivo.


B

resultativo.


C

permansivo.


D

durativo.