Leia o texto para responder as questões de
16 à 26.
PERDIDOS NO
ESPAÇO
Quando foi deflagrada, há mais
de cinco
décadas, a corrida espacial parecia
anunciar o
começo de uma nova era.
Ao colocar o
primeiro satélite em órbita
(1957) e repetir o feito com uma nave
tripulada
(1961), a então União Soviética não apenas
levava a
competição mundial entre dois modelos -
capitalismo e socialismo- a uma nova
fronteira
simbólica. Imaginava-se, nos dois lados do
grande
confronto, que o futuro estava no espaço,
como
estivera antes na exploração dos oceanos e
na
navegação aérea.
Assim
desafiados, os Estados Unidos
mobilizaram recursos necessários para
liderar a
competição e enviar, a partir de 1969,
sucessivos
pares de astronautas à Lua. Passados
tantos anos, o
encerramento do programa de ônibus
espaciais,
com a conclusão do voo orbital da Atlantis
ontem,
sugere um balanço do ciclo pioneiro.
É
notório que as expectativas, infladas pela
excitação ideológica da Guerra Fria, não
se
confirmaram. O próprio investimento nos
programas espaciais já declinava desde que
a
dissolução do império soviético fez os
gastos
parecerem exorbitantes como nunca.
Americanos e russos, entretanto,
enviaram
missões não tripuladas a todos os planetas
do
Sistema Solar. Embora exista água líquida
(e talvez
formas rudimentares de vida) num satélite
de
Júpiter (Europa) e noutro de Saturno
(Encélado),
essas viagens nada revelaram de promissor
do
ângulo prático.
A utilização econômica do
espaço remoto,
para não dizer sua ocupação demográfica,
continua
mera fantasia. As distâncias são
incomensuráveis;
os custos, astronômicos.
Onde a
competição espacial gerou
resultados palpáveis, tecnológicos e
econômicos,
foi na dimensão menos espetacular das
vizinhanças
do planeta, a faixa de 36 mil quilômetros
em que
trafegam milhares de satélites
artificiais.
Essa rede, que viabilizou o
enorme
progresso das telecomunicações nestas
décadas,
também deu impulso a avanços em áreas como
meteorologia e eletrônica. Torna-se um
problema
conforme se acumulam objetos cuja órbita
um dia
decairá até que se desfaçam em atrito com
a
atmosfera, nem sempre de forma segura.
A
exploração do espaço continuará porque
o desejo de conhecer é inextinguível. Seu
desenrolar, porém, será mais lento e
realista. Nossa
condição parece ser solitária (há décadas
varremos
os céus na busca de sinais que possamos
interpretar
como inteligentes...); não falta razão
para nos
voltarmos mais para a Terra e seus graves
problemas do que para “os abismos do
espaço
infinito”.