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NOSSA FRAQUEZA E NOSSA FORÇA
Roberto Mangabeira Unger
O Brasil tem hoje grande força e grande fraqueza. Compreender como usar nossa força para superar nossa fraqueza é requisito para o avanço que podemos dar nesse momento de nossa história. O governo a ser eleito nas próximas eleições será apenas um dos agentes desse avanço. Agentes teremos de ser todos.
Nossa grande força é a energia que desponta na nação. Essa energia tem três manifestações sociais mais importantes.
A primeira manifestação é a renovação de padrões produtivos que ocorreu em parte da indústria e da agricultura brasileiras. Nesse longo período em que nossos governantes sacrificaram as necessidades da economia real à conquista ilusória da respeitabilidade financeira, muitas empresas reagiram criativamente ao aperto. Estão prontas para crescer quando assegurarmos as condições para diminuir os juros e para simplificar os tributos. E nossos bancos, entre os mais eficientes do mundo, têm tudo para mudar de ramo, passando a financiar a produção.
A segunda expressão de energia latente está na multidão de empreendedores e profissionais emergentes que representa o traço social mais notável do Brasil de hoje. Nenhum país, nem mesmo os Estados Unidos, tem cultura mais difusa e multiforme de iniciativa que o Brasil. O vigor dessa cultura ultrapassa os limites das atividades econômicas: deita raízes numa idéia mais ampla de auto-ajuda em todos os campos da experiência. Nossas instituições ainda não estão organizadas para apoiar esse impulso construtivo.
A terceira encarnação da energia brasileira é a mais obscura e a mais significativa. Por um processo secreto de autopreservação, boa parte da massa de trabalhadores dá sinais de optar por ideal pequenoburguês; de querer seguir a trilha dos emergentes. Até mesmo a vida de biscateiro a que está condenada hoje mais da metade da nossa populacão adulta passou a servir, para milhões de pessoas, de introdução impiedosa à religião do esforço e ao culto dos esforçados.
Dar oportunidades e recursos a toda essa energia representa o caminho para o soerguimento do país. Indica a essência da obra do futuro governo. É no cumprimento dessa tarefa, anterior a opções programáticas mais arrojadas, que se poderão encontrar hoje os representantes de muitas vertentes da política e do pensamento brasileiros. Não é trabalho para sectários.
Se a energia que corre pelo país é nossa grande força, nossa grande fraqueza continua a ser a dúvida a respeito do nosso destino nacional. Os brasileiros de todas as classes sociais ainda não se convenceram de que o Brasil pode ser um grande país. Ainda não acreditam que o Brasil pode desenvolver, em proveito de toda a humanidade, uma forma própria de vida. Essa dúvida constitui um obstáculo maior do que as deficiências de ensino, as faltas dos partidos ou os excessos dos juros.
A solução é deixar que a energia sepulte a descrença. Definir e construir os meios para ampliar a base social das atividades produtivas e das práticas de auto-ajuda. Fazer do produtivo o social e do social o produtivo, em vez de tratar o produtivo e o social como compartimentos separados. Centrar a política na demarcação de um rumo que instrumentalize e capacite a energia frustrada do país. Trazer o Brasil à consciência e à posse de si mesmo.
Os argumentos colocados no texto para a defesa das idéias do autor:
se apóiam em citações de autoridades no assunto;
carecem de credibilidade por serem radicalmente opostos ao governo atual;
se fundamentam em opiniões pessoais;
são apresentados como decorrentes de pesquisas de opinião;
se estruturam a partir de silogismos e sofismas.